António Ferreira Estimada Nivalda Gonçalves, publico esta carta com a alegria de saber que poderás ser uma terceira via. Não fiques triste, o Bill Clinton também foi uma "terceira via", com muita classe. Pergunta à Hilary se o homem tem classe, ela confirmará a classe do estadista. Ela já gostou do Bill, sabes, quando ele tinha barba, depois ele virou governador e presidente, e fez umas asneiras, agora ela já não gosta tanto do Bill, já não perde muito tempo com ele, pois está preparar-se para ser candidata à Casa Branca. A mulher teve de engolir alguns dissabores, mas seguiu em frente. Ela já devia ter sido presidente, sabes, o Obama, aqui entre nós, é um "pussy". Eu apoiei a Hillary com esta convicção, ela não é nenhuma "pussy", é rija a menina, com a Hillary não há fitas, não é "Yes, we can", é algo com mais arrojo, genuíno; a Hillary não é nenhuma pipi, ela sabe trucidar trombones, acredita em mim, conheço bem a senhora Hillary, e o Bill conhece melhor do que eu, por isso, tal como eu, respeita a esposa com devoção, apesar dos dois não dormirem no mesmo quarto há mais de duas décadas. E sabes porque eles não dormem no mesmo quarto? Eu explico, o trombone do Bill pode ser trucidado, se tal acontecer. Nivalda, gosto de ti, apesar da voz irritante que insistes em manter, gosto de ti. Tens uma forma titubeante de falar, com um sibilo insidioso e uma timidez avassaladora e jocosa, mas, como já disse, gosto de ti. Não me importo que sejas do Campanário, ou do campo; sabes, as pessoas do Campanário são tão importantes como as pessoas que nasceram na cidade. E não me importa nada, mesmo nada, que sejas uma menina, não, não, isso não tem importância nenhuma. Devias pensar o mesmo que eu e afirmar-te com um pouco mais de convicção. Li o artigo do DN-M (de Victor Hugo). Já sabia o que lá estava, os meninos dos charutos temem o "controlo" sobre ti de outros meninos. Também sei algumas coisas que não estão no artigo; sei, por exemplo, que certas meninas citadinas não te apreciam muito. Oh, Nivalda, mulher, como deixas esta gente por as patinhas parolas nas tuas costas, desta maneira? Não sabes que a dignidade humana não tem nada a ver com berços ou cromossomas? Oh, mulher, levanta a voz um pouco mais alto e com um tom mais firme? Se não funcionar, trucida os trombones, como a Hillary. Victor Hugo tem razão no seu artigo, os miseráveis andem aí. Nivalda, não dês muita importância a isso. Nivalda, mulher, tu estás na política, percebe uma coisa, tu fazes a diferença, se levantares a voz, mudas as coisas, um pouco e devagarinho, mas as coisas mudam... Se não é por mim, faz isso pela Hillary, ou pela Hannah Arendt, ou Virgínia Woolf, ou Clarice Lispector, ou Florbela Espanca...sei lá...a lista é interminável...