No início do novo ano é costume o mago trazer oferendas ao menino. Este ano, as oferendas vieram camufladas de "novas tabelas de IRS", qual quadro excel onde os pais introduzem os valores e automaticamente ficam a saber se restam hipóteses de "alimentar" o menino. A tradição já não é o que era e as oferendas certamente não chegarão mais! E não chegarão mais, pois para este mago, em determinadas circunstâncias, não ter meninos, ter um ou dois meninos é exatamente o mesmo. Por outras palavras, o casal sem filhos, com um filho ou com dois filhos terá sempre a mesma taxa de retenção. E caso tivesse três, quatro ou até cinco filhos, teria uma redução de dois por cento no seu IRS. Sim leu bem, dois por cento, pode ser a diferença entre não ter filhos ou ter cinco filhos. Paradoxalmente castrador, não?! Provavelmente o mago anda tão ocupado com os gráficos, os números, a dívida e as taxas de juro, que não se apercebeu que no país que diz governar quase já não nascem cidadãos para serem governados. Essa mesma ocupação, não lhe permite percecionar que os jovens do seu país saíram e os que ficaram não constituem família. Não deu conta que aqueles que ainda têm trabalho e filhos viram as deduções com a educação, a saúde e o empréstimo à habitação reduzidas e não usufruirão dos €250 de benefício em restauração, oficinas ou institutos de beleza, uma vez que tiveram de fazer opções e já não conseguem frequentar esses espaços. Mesmo tendo o seu NIF memorizado, poucas oportunidades terão de pedir para que este seja expresso na fatura. Enquanto isto, lá fora, fala de soberania, credibilidade externa e regresso aos mercados sem dar conta que internamente trai o menino e extingue o país!

Nuno Maciel, professor