Seguro pergunta: qual é a pressa? Passos garante: estamos bem. Por cá, tenta-se passar por entre a chuva que não cai e atira-se ao ar a obra de sempre: uma para mim, outra para ti e outra para quem a agarrar.

Abaixo desta linha ficcional, o povo empobrece, empurra a carroça, faz contas, ouve falar dos mercados e olha a classe política que não vai formosa, nem segura. Há, sobretudo, um vazio que avança, uma noção de que o país se desfaz e um sentimento cada vez mais forte de que há uma parede muito alta, densa e negra a separar o discurso da acção, as palavras da realidade.

Há nitidamente dois patamares que habitam a nossa existência: o da política e das suas ficções e o do povo e da sua realidade. Uma e outra raramente se tocam, são susbstâncias que não se misuram sob pena de uma contaminação maior.

A política julga-se a salvo no discurso, esquece o método e segue em frente. Esquece-se, cada vez mais, que há um risco, que o país real tem uma tendência natural para desfazer o discurso. O código, por muito bem elaborado e repetido, não tem a força do medo, da fome, da desesperança, dessa coisa sem nome que cresce em silêncio, mas que, como dizia Pepetela, pode levar o povo, um dia, a cerrar os dentes e a avançar. E a aí o discurso cai perante a brutalidade de uma força maior. As palavras são importantes, mas o músculo, o do coração e os outros, podem facilmente esquecer a dor e sibstituí-la pela força, de vontade ou de braços (para o caso pouco importa). Haja vontade e a ficção, construída e imposta, cai por terra, com estrondo e sem discurso. Não há palavra que trave um braço ou um coração a galope.

A matéria será sempre o lado mais forte, e quando provocada reage. Os que vivem na dimensão do disurso ainda estão a tempo de recuar e olhar para baixo, ou para cima, ou para os lados, mas, com certeza, olhar para além de si.

É tempo de substituir o eu pelo nós. Sim, primeiro até pode ser no discurso, mas depois também terá de o ser na realidade. O país não se ergue pelo discurso, nem pelos mercados, nem pelas questões sobre a pressa ou pela máquina partidária, o país ergue-se e avança quando o todo empurra para o mesmo lado e faz força e move-se efectivamente.

Até lá, e eqnanto subsistirem duas dimensões que não se tocam, há entre elas um vazio que impede o movimento ou que o anula empurrando em sentido contrário. E quando duas partes se separam em demasia, há um abismo e uma queda.