No Ciclismo nasceram algumas das maiores lendas do Desporto mundial. De Fausto Coppi a Eddy Merckx, passando por Jacques Anquetil e pelo 'nosso' Joaquim Agostinho, alguns dos mais extraordinários protagonistas do Desporto mundial vieram do mundo do Ciclismo. Estranho? Não tanto porquanto o ciclismo, sendo um desporto individual e muitas das vezes solitário, é propiciador das grandes gestas e das grandes epopeias. Na estrada e no âmbito das grandes competições mundiais, dificilmente se comparam marcas e tempos porquanto as circunstâncias em que uma competição se desenvolve são muitas das vezes irrepetíveis. O que sobressai é quase sempre a saga do ciclista isolado, lutando no limite do esforço físico, vencendo as montanhas mais exigentes ou dominando descidas vertiginosas em que joga a vida a cada curva da estrada. Arrostando muitas das vezes as condições climatéricas mais adversas. Assim se construiu a lenda de Joaquim Agostinho que no Tour de France levou às costas, ano após ano, os anseios quando não também as frustrações de muito português emigrado em França, que via na luta empolgante desenvolvida pelo homem de Bregenjas o modo possível de redimir-se da afrontas suportadas ao longo de uma vida de emigração. Armstrong teve um outro percurso, tendo feito uma carreira diferente da do campeão português. Americano de Austin, em pleno Texas, teve de algum modo o caminho aberto por Greg Lemond, o primeiro norte-americano a participar numa Volta a França e a obter o destaque que veio a fazer dele uma das personalidades do desporto mundial à época. Mas o campeão dos campeões, o homem a quem são assacados feitos memoráveis e irrepetíveis, o protagonista maior de uma plêiade de grandes campeões que deixaram o nome gravado a letras de ouro na história do ciclismo mundial, haveria de ser Armstrong, um texano com 1,77 metros de altura que ultrapassou as façanhas de todos os seus antecessores. Um vencedor nato como Armstrong tinha forçosamente que despertar demónios, que arregimentar invejas e más vontades. Havia muito, na verdade, que se não livrava da suspeita de recorrer ao uso de substâncias dopantes susceptíveis de não serem detectadas nos variadíssimos controlos a que ao longo da sua carreira foi sujeito. E logrou conseguir atingir o final da carreira sem ter chegado a ser penalizado pelo uso de substâncias dopantes. Até que ultimamente a União Ciclista Internacional o considerou culpado pelo uso de substâncias e métodos proibidos susceptíveis de influenciarem o rendimento desportivo de um atleta. Duas singularidades neste processo avultam: uma tem que ver com o facto de Armstrong ter sido punido por práticas adoptadas enquanto praticante de ciclismo vários anos decorridos sobre ter abandonado a prática do ciclismo; outro tem que ver com a hipocrisia que é transversal a todo este processo. O uso de substâncias estimulantes constitui uma forma de manipulação de resultados desportivos, e como tal uma forma de batota, recurso não aceitável na prática desportiva. Haverá, contudo, que não perder de vista que os resultados alcançados por Armstrong durante os anos que durou a sua carreira, mais a mais depois de ter passado por um incidente difícil que teve que ver com a interrupção a que se sujeitou em consequência do surgimento de um carcinoma num testículo que o deixou em situação muito delicada, eram resultados de excepção dificilmente ao alcance de um qualquer ser humano ainda que de um ser com a estrutura de Lance Armstrong. O que quer com isto dizer-se é que mesmo um atleta da envergadura de Armstrong muito dificilmente poderia alcançar sem ajudas os resultados por ele alcançados e que foram largamente celebrados. Isto pela circunstância de se tratarem de resultados que pelas condições de esforço em que foram obtidos estão em princípio para além das possibilidades físicas de um ser humano. Na verdade, quem se situa fora da realidade do Desporto não tem as mais das vezes a noção do esforço a que um ciclista tem de submeter-se, trepando e descendo ao frio, à chuva, à torreira do Sol, na neve, e podendo contar unicamente com ele, já que por muito relevante que se mostre o apoio que a equipa lhe possa prestar nas situações que decidem uma etapa ele é a peça decisiva da engrenagem. Ele e mais ninguém. O desgaste físico e anímico que todas estas situações provocam deixam, inevitavelmente, marcas profundas, sendo necessário um grande estofo para com elas lidar e ser vencedor. A questão está em que não existem super-heróis, sendo sabido por parte de quem acompanha estes fenómenos que o recurso a substâncias estimulantes contribui em grande medida para o aparecimento destes resultados. Do mesmo modo que para ninguém constitui surpresa que o ciclismo seja uma das modalidades desportivas em que o uso de substâncias dopantes é mais recorrente, isto pela elementar razão de não existirem superatletas capazes de, sem o recurso a uma ajuda, enfrentarem os níveis de exigência crescentemente mais gravosos com que são confrontados no dia-a-dia. Por mais fortes que sejam!

Carlos Sequeira