Ainda há bem poucos anos era quase impossível falar de desemprego na Madeira. Que não, dizia o secretário da tutela. Que a Madeira vivia em clima de paz social, que estávamos próximo do pleno emprego, que ainda precisávamos de importar mão-de-obra e vivíamos num mar de rosas. Em poucos anos tudo mudou. Hoje é o próprio Governo Regional que reconhece que o desemprego é um drama, que não há paz social, que o pleno emprego foi uma miragem. A mudança de atitude do Governo é saudável, mas vem tarde. Muito tarde mesmo. Agora não há um só madeirense que não conheça alguém que esteja desempregado, que tenha emigrado ou a pensar em deixar a Região. Estamos a regredir. Ainda há bem poucos anos era quase um crime falar de pobreza na Madeira. A diferença entre os números permitidos e os números reais custou o lugar do anterior responsável pela Segurança Social na Madeira. Pobres? Não havia cá disso! Era basicamente esta a resposta do Governo Regional. Hoje é o próprio Governo Regional que não só reconhece que há pobres como assume um plano de combate à pobreza e briga com o Governo de Lisboa por causa das cantinas sociais onde quer ajudar a matar a fome aos pobres. Estamos a regredir. Estes são apenas dois exemplos concretos do retrocesso que a Madeira vem conhecendo, pelo menos desde 2004. A fartura desse ano eleitoral, pejado de festas e inaugurações de mesa farta, contrasta duramente com a realidade de hoje. Vários milhões de euros depois, várias obras inúteis depois, muitas falências depois, a Madeira volta a ser uma região com milhares de pobres e milhares de desempregados. E o estranho de tudo isto é que fizemos todo este percurso, da pobreza à riqueza e o regresso à pobreza, sempre pela mão dos mesmos. Não conhecemos outros. Ou melhor, não quisemos conhecer outros. Com raras excepções ao nível do poder local, a verdade é que a maioria dos madeirenses sempre preferiu o erro conhecido do que o risco da mudança. E até agora, quando essa mesma maioria dos madeirenses vive sérias privações, continua a notar-se um estranho alheamento social. As pessoas até podem estar mais ariscas, até reclamam, até esperneiam um pouco mais, mas apenas com o vizinho do lado, com o automobilista da frente, com clientes que não se despacham na fila do supermercado. Toda esta tensão desvia-se, de forma quase tão natural quanto estranha, do centro dos problemas. E esse ponto fulcral não está no vizinho do lado, no automobilista da frente, nem na fila do supermercado. Estará na conjuntura internacional e na crise nacional, mas sobretudo no modelo de governação regional. Que está esgotado porque se esgotaram os milhões que disfarçavam a ausência de projecto. Prova disso são as brigas cada vez mais constantes no partido da maioria. Ainda há bem poucos anos era impensável assistir-se a tanta afronta no PSD-M. Hoje isso é cada vez mais natural, sinal de que há mais gente a perceber que há políticas falhadas. E políticos falhados também.