Nada funciona com dignidade. O parlamento é a nódoa de uma Autonomia ajoelhada; o governo, existindo, não existe; o orçamento regional é uma grosseira mentira; no Estatuto da Região não se mexe porque pode colidir com interesses; a economia um desastre há muito anunciado; os empresários em um desesperado atoleiro; os desempregados e condenados à pobreza emigram; todos os sistemas estão em falência conceptual e financeira; as famílias entregam a casa ao banco e quase vendem os dedos, porque os anéis já foram; o Tribunal de Contas detecta sucessivas ilegalidades; o Bispo apara o jogo e permite a propaganda no interior dos templos; o Representante não representa coisa nenhuma, enfim, questionará o leitor, perante as evidências e o discurso da principal personagem deste filme de terror, se alguém pode levar a sério o que recentemente disse: "não se pode exigir mais das pessoas". Mas, afinal, de quem foi a culpa pelos desequilíbrios orçamentais que conduziram a Madeira à situação de falência? Quem fez uma política contra os princípios da coesão social? Quem andou aí a gastar o dinheiro público, ao ponto do esfarrapado, sem cheta para acudir às situações de gritante pobreza? Quem desrespeitou os elementares princípios do planeamento, por exemplo, o da transformação graduada no tempo? Quem não quis ouvir e tudo chumbou na Assembleia? Quem tudo fez por controlar as instituições públicas e privadas e quem foi a personagem que ofendeu todos quantos, por cidadania, exprimiram os seus pontos de vista? Quem falou na primeira pessoa puxando a si os louros e, agora, descarta a situação de gravíssimo constrangimento. Fiz obra, repete, frequentemente. Mas que obra? A obra de construção e aprimoramento do ser humano? A obra da coesão social? A obra educativa e cultural? Não, essas ficaram por inaugurar! A obra que lhe diz respeito, na esteira de muitos interesses, fica aí, petrificada, não fica na educação, na saúde, no emprego, nos direitos sociais autónomos e numa economia sustentável. O passo foi superior à perna e agora, choramingando e empurrando com a barriga, tenta esconder a sua responsabilidade política dizendo que "não se pode exigir mais das pessoas". É o fim da linha!

André Escórcio, Professor