O que outrora foi negado a John Cage, num dos Bienais da Música Contemporânea de Zagreb, conseguiu-se num ápice aqui na Madeira. E nem sequer era preciso termos aqui um John Cage, que, embora já estivesse estado na Madeira, poupou-a das mesmas halucinações musicais. E então, numa certa altura, uns quinze anos atrás, o venerável piano Bechstein, um ex-libris da cultura musical jazzística e erudita de todo o país, quase que serviu, até alguém ter reparado, de aquário. Sim, encheu de água pluvial, mas não para servir de veículo para uma qualquer peça experimental e vanguardista, conforme Cage o queria, mas simplesmente porque os bastidores de um dos palcos mais emblemáticos do Funchal, quando chovia, pareciam as cataratas do Niágara, proporcionando mesmo, conforme presenciei na primeira pessoa, uma cortina sonora para quem actuava no palco. Só que, numa altura destas, infelizmente, o piano estava de lado errado. E encheu. E enferrujou. E foi, talvez com a melhor das vontades mas de certeza com perícia insuficiente, "restaurado". O pobre. E sofreu uns anos, e deu os seus últimos suspiros. Na altura escrevi um artigo, "A morte dum piano", um epitáfio a lamentar a morte de um "rinoceronte branco", um bicho de cauda inteira, raro e exótico na Madeira. Mas agora, devido à acção certa na altura certa, das cinzas da negligência impressionante, descuidado lamentável e desleixo deplorável, renasce uma Fénix, a entoar das alturas o seu canto de ressurreição pelas mãos mágicas do puro espírito poético que já tanto à Madeira deu. Bons céus, neste domingo, à Fénix e ao seu cavaleiro!
Robert Andres, Musicólogo