Quando leu a notícia de que Portugal tinha regressado aos mercados e de como isso era positivo para o país, não escondeu o sorriso. E pensou que bom seria também voltar ao mercado, como nos velhos tempos, em que esse era o garante de estabilidade financeira e em algumas épocas a principal fonte de financiamento familiar.
Às vezes era obrigado a 'falar a um carro' de praça, noutras servia mesmo a camioneta da SAM. Carregava as caixas de tomates, de semilhas, de batatas doces, de cebolas e alhos impecavelmente apresentados numa trança e lá ia para os Lavradores, com a sensação de dever cumprido e de que tudo valia a pena. Mesmo os raspanetes da mulher que insistia que a hora de jantar era sagrada e que não fazia sentido estacar feijão noite cerrada, só com a luz da lua como companhia.
Lembra-se de encontrar a cidade ainda meio adormecida, embalada pela maresia e confortada pelos primeiros raios de sol, que um homem da terra também pára para contemplar a natureza.
Carregava tudo para a banca do costume e lá começava a negociação. Zangava-se com a ofensa ao seu trabalho. Ripostava e garantia que os tomates não estavam demasiado maduros, que eram apenas os de cima para não emborracharem. Às vezes jurava que ia misturar tudo, mas a honestidade de saber que isso podia danificar o produto que tantas horas de dedicação lhe levara, fez com que a cena se repetisse anos a fio.
Ainda voltava a tempo de cumprir o seu horário na função pública. De passagem por casa, dizia ao filho mais velho que estava quase garantidos os dias de férias. E desta vez não ficariam pelo Porto Santo. Iriam a Lisboa e a Fátima agradecer a bondade divina. O filho entusiasmava-se e à tarde ia ele próprio fazer a sua parte e apanhava ervilhas e massarocas.
Mas com o tempo, os produtos passaram a não ter o aspecto desejado. A concorrência das grandes superfícies fez com que já nem para deslocação rendesse. Veio a desmotivação e por fim o abandono do mercado e também da terra, para além da subsistência.
Por isso, só podia ser uma coisa boa isto do regresso do país aos mercados. “Isto é uma grande notícia, não é?”, perguntava ao filho. “Não te sabia tão entendedor destas questões”, brincou. “Mas sim, pode ser uma alavanca na economia, dependendo se se trata de uma ida pontual ou não”, elucidou. “Eu vou mas é semear mais uns tomateiros este ano”, entusiasmou-se,enigmático.