Como qualquer português que se preze, por preocupação ou por um sentido prático da vida ou até mesmo pelas perguntas dos miúdos, que até eles já começam a questionar o porquê disto tudo, dou comigo a pensar, como tudo isto foi possível? Como deixamos o país chegar a este ponto? Temos um país cheio de dívidas, prazos apertados para pagar os juros e amortização de empréstimos, novos empréstimos tivemos de fazer com o "apoio" e "condições" da troika. O povo já nem consegue manter o básico e o elementar da condição de vida humana e já estão a falar que tudo isto é insuficiente para pagar o que devemos. E ainda é preciso pensar em crescimento!... Como foi possível fazer tanto (e mau), com tão pouco e agora hipotecar seriamente tudo o que temos e, pior ainda, deixar um peso tão grande para as futuras gerações? Que grande incoerência e falta de sentido de Estado estar agora a pedir para debater o estado do nosso Estado ou da Nação! Lembro-me logo de duas perguntas que teimam em não sair da minha cabeça: "… e o burro sou eu?", "… e ninguém é preso?". Quem teve o poder de governação e de decisão ao longo dos últimos 30 anos pensou sempre a muito curto prazo, em ciclos eleitorais de 4 anos e com muito pouca visão estratégica. Não foi suficiente aproveitar os fundos comunitários. Existem infra-estruturas mas não existe desenvolvimento económico, tecnologia de ponta nem uma população desenvolvida, com métodos e boas práticas de trabalho, com sentido prático e de eficiência de trabalho, com empresas modernizadas ou até mesmo capaz de competir com o mercado externo. Temos sim, trabalhadores que já deram e cada vez mais dão prova de que trabalham em qualquer mercado e com condições adversas. Em anos de facilitismo e de maior folga orçamental não demos o exemplo, reformando e reformulando o Estado e o seu peso na economia do país. Agora, que estamos todos aflitos, é que vamos pedir para retirar Estado ao Estado? Então e os impostos pagos foram para onde ou servem para quê? Fomos e somos muito maus gestores em causa própria…
Pedro Calado, Vice-presidente da CMF