
Foi um erro de casting José Manuel Coelho vestir-se de presidiário na Assembleia Legislativa da Madeira. Aquela indumentária não combina as gravatas alistadas na maçonaria insular. E na casa da democracia não há bandido sem imunidade. A ALM é um exílio para os refugiados da Justiça Portuguesa. Dos que fogem da balança cega e apostam tudo na prescrição dos processos judiciais, dos que pagam o silêncio das testemunhas e promovem a apatia do Ministério Público. Não é um local para deputados ousados e ingénuos que, tal como José Manuel Coelho, insistem em repetir até à exaustão verdades inconvenientes infundadas, cujas provas seguem o mesmo rumo que as contas públicas regionais – esquemas de ocultação numa infindável rede de conluios. Esses representantes do povo não devem estar num plenário em forma de hemiciclo mas numa solitária do Estabelecimento Prisional da Cancela.
É óbvio que aquele adereço de camisa às listas só seria consentido pelas hostes alaranjadas em vésperas de Carnaval, numa sessão legislativa em que também Alberto João Jardim pudesse figurar com uma fantasia, numa aparição rara ao parlamento é certo, mas para apontar, de ceroulas talvez, baterias a Lisboa. “Nós estamos todos a pagar um estado parasita e estamos a assistir ao triunfo dos idiotas”. “Isto não é um estado digno, isto é uma paródia da república”. As frases seriam a caricatura perfeita ao poder político regional, mas remontam a 2007. Saíram da boca de Jardim, montado nos palcos dos comícios na Madeira e tinham como destinatário o então primeiro-ministro José Sócrates, na primeira versão reformulada da Lei das Finanças Regionais, um modelo menos reles do que aquele que foi recentemente aprovado por Passos Coelho, mas que, na altura levou Jardim a lançar-se numa heroica epopeia demissionária estando certo da sua reeleição através de uma sondagem secreta. Só não repete a gracinha agora porque já percebeu que o comando do alçapão da Quinta Vigia está finalmente nas mãos do seu povo, cada vez mais averso a jogadas de bastidores e a palhaçadas políticas.
O número teatral protagonizada ontem no Parlamento não surpreendeu ninguém mas chocou a bancada social-democrata na figura do seu presidente, imagine-se, Jaime Ramos, um expert em alta costura, que decidiu abandonar o plenário, transtornado com o baixo nível, "por não se encontrar vestido de forma condigna para os trabalhos”. É claro que daquela balda não foi subtraída uma casa decimal da tabela remuneratória daqueles felizardos trabalhadores. Coelho podia até ir vestido de Alice no País das Maravilhas e satirizar a “terra pacífica e de bons costumes” de que falou o deputado do PSD-M, Tranquada Gomes, que seria igual ao litro. Estou farto dessa paródia inconsequente. Se os elegi, aguardo propostas, soluções, luzes ao fundo do túnel, amortecedores de quedas, atenuadores de impactos, incentivos à criação de emprego, à fixação dos jovens no país, na região, amparo aos velhos.
E o que vemos? Uns deputados embaraçados com "o escusado aparato" da GNR nas buscas do DCIAP já lá vão mais de nove meses. Outros a discutir se um deputado está ou não habilitado com carta de condução quando prestariam um contributo à democracia se avaliassem as habilitações num outro patamar: o do conflito de interesses entre público e privado. Onde anda o papel fiscalizador da ALM quando o sector público adjudica, por ajuste directo, mais de meio milhão de euros a gabinetes de advogados, que são militantes do PSD ou próximos deste? O que andam a fazer os mais de 300 advogados, funcionários da administração pública e das autarquias? Até que ponto é sustentável o sector público regional suportar mais de metade do quadro jurídico da Madeira? E se controlam tantos, porque razão têm necessidade de recorrer tanto aos privados?