Abriu-se o debate sobre o futuro de Portugal - leia-se sobre o futuro do Estado - da pior maneira. Já escrevi sobre isso. Mau mesmo é verificar que o erro mantém-se. Ficamos com a ideia de que o governo não quer nem a participação do PS nem a dos parceiros sociais na discussão do "futuro do Estado". O PS fez a vontade ao governo e já disse que não participa no referido debate. Duas posições irresponsáveis. Tanto a do governo como a do PS. O país precisa de consensos. Precisa que se junte aqueles que podem e devem corrigir os males de Portugal. Com responsabilidade e sem demagogia. O problema é que "estes" partidos estão mais preocupados com as próximas eleições que com as próximas gerações. Fazer acordos e chegar a consensos na verdade podem levar, no imediato, a resultados eleitorais menos bons. Mas é, sem dúvida, o que o País precisa para bem das próximas gerações. Este compasso de espera até se sentarem à mesma mesa o governo, a oposição e os parceiros sociais é um tempo perdido e dá oportunidade a situações que são autênticas humilhações nacionais. Repare-se: até agora só existe um Relatório sobre o futuro do Estado em Portugal. Foi feito por estrangeiros. Trata-se do relatório do FMI. Ou seja, foram estrangeiros que fizeram o que deveria ser sido feito por nós. Que humilhação! Damos (e será verdade?) a impressão que não sabemos nem nos governar (e veja-se o estado a que o país chegou) nem encontrar soluções para o nosso próprio futuro. Neste momento Portugal só sobrevive porque está com uma intervenção financeira estrangeira. Pior ainda é verificar que só sairá dela se os estrangeiros encontrarem as melhores soluções para que isso aconteça. No entretanto assiste-se ao «jogo do empurra» na questão tão importante, decisiva e básica que é a "reforma do Estado". O caricato é que agora está tudo à espera do próximo relatório com as soluções para Portugal: virá da OCDE. Mais um relatório feito por estrangeiros... O regresso aos mercados O governo está muito satisfeito porque parece que vamos regressar aos «mercados». Uma excelente notícia. Concordo. Mas será que isso basta? Será que esse é um fim em si mesmo? Penso que não. Portugal vai regressar aos mercados muito mais pobre, com um nível de desemprego elevadíssimo e descontrolado, com uma carga fiscal impossível de suportar e com um Estado igual ao passado. Também com um país desanimado. O governo corre o risco de ganhar a confiança dos mercados sem ter a confiança dos portugueses. Uma equação terrível e de mau augúrio. Vale a pena recordar que no tempo de Salazar, Portugal era muito apreciado pelos «mercados». Tinha uma moeda forte, os cofres cheios de ouro. Só que eramos pobres. É isso que queremos? Também devemos recordar (e tem pouco tempo) que foram estes mesmos «mercados», que agora nos sorriem, que na altura do «regabofe nacional» diziam que "estávamos bem". Escusado será dizer que pouco tempo depois já diziam que eramos "lixo". É por isso que olho para este "regresso" com um misto de alegria e desconfiança. Até porque penso que corremos o perigo de ter uma recaída e voltarmos a precisar de um novo resgate mesmo depois do regresso aos mercados. O que seria absolutamente dramático! Livro Foi publicado um livro muito interessante sobre "Grandes Personalidades da História de Portugal". O autor é Lourenço Pereira Coutinho. Vale a pena ler para conhecer aqueles que foram os grandes de Portugal e que fizeram deste país uma grande Nação. Ao conhecer estas biografias ficamos sem dúvida com orgulho de sermos portugueses mas com lamento pelo presente. Isso só nos poderá dar vontade de contribuir para a mudança.

Paulo Neves