António Ferreira O conjunto das «liberdades individuais» são cá uma maçada. Tão chato que até faz comichão. Basta soltar, entre os dedos, alguma coisa com sabor a disparate, que cai logo em cima de nós, uma imensidade de mimos, «caralhinhos» reluzentes, manifestações espontâneas de carinho, ternura e respeito, tais como: "este tipo é parvo", "o pateta é mesmo ridículo", "o idiota só produz opiniões de natureza disparatada". Eu suponho, que seja o efeito tu-não-me-apanhas-porque-sou-anónimo que faz crescer a verve criativa e o fervor pelo pensamento cristalino, isento de impurezas. Porém, apesar dos afectos excessivos que estamos sujeitos quando subimos a voz para manifestar uma opinião, sou obrigado a dizer que isto da "liberdade individual» é mesmo assim: é dar e levar. Isto não é só insultar os outros como nos apetece. Se levantamos a voz temos que estar preparados para o nosso ego sofrer consequências, digamos, desagradáveis. Numa sociedade civilizada, todos nós temos o direito aos nossos pequenos momentos de grandeza, mas devemos ter presente que os nossos estimados concidadãos possuem o mesmo direito - e, em alguns casos, o dever - de dizer que grandiosos são só os nossos apêndices auditivos, e a única coisa que merecemos é levar nas orelhas, por andarmos com ideias que somos melhores que os outros (algo que é perfeitamente legítimo e salutar). Um «cidadão» dá uma opinião, e depois leva na tromba dos outros cidadãos, porque, numa democracia, não há cidadãos melhores que os outros. Isto é algo natural. É assim que tem e deve ser. Esta pequena introdução, deve-se à notícia terrivelmente animadora de José Manuel Coelho ser condenado a 18 meses de prisão (pena suspensa). Não quero, de forma alguma, faltar ao respeito às entidades judiciais (Deus proteja-me desse atrevimento). A defesa da honra dos cidadãos é absolutamente indispensável e imprescindível. Confesso até, que logo depois, de ler alguns trechos da peça jornalística tive a sensação de estar na Suíça. Uma confederação em que nenhum membro da classe política extravasa o admissível na luta política-partidária. Um país em que todos políticos revelam absoluto respeito pela honra alheia, e o dolo não é intenso, o dolo é suave(zinho), harmonioso(zinho) e subtíl(issimo). Pouco depois libertei-me do torpor, e reparei que não estava na Suíça. Vejam lá que não estava. Estou (estamos todos) na Ilha da Madeira (32°38'N, e 16°55'W), que faz parte de uma região sobejamente conhecida pela sua ilustre, sublime e supimpa classe política. Para além da perversão do que disse na introdução, acrescento o que penso de José Manuel Coelho: o homem tem muitos defeitos, é espalhafatoso. Julgo que muitos madeirenses pensam exactamente o mesmo: o homem faz espectáculo e não política. Estou quase certo que o povo madeirense irá, mais cedo ou mais tarde, despachar o Sr. Coelho do Parlamento, pelo voto. Numas eleições. Convenhamos, decentemente. Agora tenho dúvidas. O homem está quase a transformar-se num legítimo herói para todos aqueles que repudiam o sistema político local. Está muito perto de dar uma estocada na crescente indiferença de muitos madeirenses. A perfeição está mesmo à tangente para o tipo de teatro que Sr. Coelho tanto gosta. Em suma, a justiça está a um pequeno passo de fazer um grande favor ao Sr. Coelho, e muito próxima, de ilustrar com rigor regimental, como se dança o baile no nosso arquipélago.