Nem me sentei a tomar um café com um amigo que encontrei por acaso no final do almoço. Não queria fazê-la esperar um minuto que fosse. Combinara com ela à porta do Mercado dos Lavradores. Dava-lhe jeito ali. Ela precisava de ir ao centro de emprego, que fica mesmo atrás, na rua do Hospital Velho. E eu far-lhe-ia companhia - sempre quebraria o silêncio denso daquela sala de espera repleta de gente forçada a fazer prova de que procura empregos que não existem. Nem sinal dela às 14h30. Pus-me à porta, a observar o entra e sai. Gosto daquele movimento, daquelas cores, daqueles cheiros. Lembram-me os dias em que a minha mãe me trazia à cidade e entrava ali, esbaforida, em busca de frutas diferentes daquelas que cresciam nas árvores que o meu pai plantara. Tive tempo para me rever a apanhar laranjas, maças, ameixas, pêssegos, damascos e nectarinas, conforme a época. E para recordar o homem que passava em São Vicente num carro de caixa aberta com um altifalante no capô a dizer sempre a mesma frase: "É banana madura para vender barato, barato!" Detive-me nos vendedores de flores. "Three euro", disse-me um senhor, ao notar o meu interesse pelas bolotas de orquídeas. Já por duas vezes comprei bolotas para a minha vizinha de cima, mas ela tem Alzheimer. Mal me sabe de partida para a Madeira, bate-me à porta com o ar zangado de quem se cansou de pedir a mesma coisa sem resultado. "Two: five euro." Mandei-lhe uma mensagem pelo telemóvel às 15h00, não fosse ela estar esquecida de que combinara comigo ou precisar de sentir que aquilo era importante. Não queria, afinal, conversar comigo sobre uma situação tão delicada como a vida a desmoronar-se - a dela e a do marido? O que a ilha mudou desde as minhas vindas felizes ao Mercado dos Lavradores! Faltava tudo. Andei numa escola sem casa de banho, com buracos no soalho, ao lado de uma igreja de terraço, que mais parecia um armazém. Fez-se o que fazia falta e fez-se o que não fazia falta, o que já só servia para manter a máquina. Agora, o peso do cimento, da dívida, da austeridade, da desesperança. Liguei-lhe às 15h10. Não atendeu. Tornei a ligar-lhe às 15h15. Tornou a não atender. Era uma história terrível. O hotel que a empregava e ao marido fechara. O banco já lhes tirara a casa. Viviam agora em casa dos pais dela, numa daquelas zonas do Funchal tão fora de tudo que eu nem conhecia. E agora ela parecia não querer falar nisso, sequer com "um jornal do continente". "Tem todo o direito", pensei, ao sair dali, com duas bolotas de orquídeas brancas no saco. Todo o empobrecimento é aflitivo. Mais ainda quando nos preocupa o que vai pensar ou dizer a vizinhança. E, numa terra tão pequena, é como se quase todos vivessem no andar de cima, no andar de baixo ou no andar ao lado e ninguém tivesse doença degenerativa do cérebro capaz de apagar a memória de nós.

Ana Cristina Pereira