É verdade, somos um país mais ou menos manso e onde é possível sujeitar o povo a quase tudo. Habituados a um certo fado, a nossa inclinação é mais para aceitar do que para questionar. Nos votos de ano novo, e apesar de 2012 ter sido um ano para esquecer, ainda econtramos espaço para afirmar, sem esforço, que desejamos que 2013 seja pelo menos igual e não pior. Não desejamos melhor, mas sim igual, apesar de igual, neste caso, ser mau, péssimo mesmo.

E foi este terreno que o FMI, a troika e o pior governo dos últimos anos encontrou pela frente e viu a oportunidade de ouro para, no fundo, levar à práica aquilo que, um dia não muito distante, Manuela Ferreira Leite disse: suspender a democracia por seis meses.

Só que, pelo caminho que as coisas estão a levar, não serão apenas seis meses, e nada terá um carácter passageiro. A dita refundação do Estado não é apenas uma questão de pagarmos mais e recebermos menos, é também a de perdermos direitos, garantias, conquistas, um certo sonho, uma certa verticalidade que conquistamos com o 25 de Abril.

Enquanto não percebermos que neste ataque sem precendentes está em causa muito mais do que uma diminuição de ordenados e um aumento de impostos, estaremos a permitir e a criar caminho fácil para aqueles que pretendem continuar com as suas propostas violentas, com mentiras vis e com uma escalada de prepotência imprópria para um Estado de Direito Democrático.

Ao desejarmos apenas igual e não pior para 2013, estaremos a permitir que o FMI venha com mais propostas, como aquela peregrina de tributar o subsídio de maternidade num pais com uma pirâmide etária que reflecte uma baixa da natalidade gravíssima e onde se discute coisas tão sérias como a sustentabilidade da Segurança Social. Ao desejarmos igual e não melhor, estamos a legitimar um primeiro ministro que mente descaradamente, nomeadamente quando diz que nunca aconselhou ninguém a emigrar. Se desejarmos igual e não melhor, estaremos a concordar com um governo que faz conferências de imprensa sem direito a perguntas, para que a sua verdade seja a única e para que o país adormeça sem questionar a violência que lhe está a cair em cima.

Sem desejarmos igual e não melhor, passaremos de vítimas a cúmplices da nossa própria desgraça. Sim, porque o que está em causa, neste momento, não é a legitimação de um programa de equlíbrio financeiro, mas sim, e cada vez mais, uma espécie de programa de extermínio do país, mas, sobretudo, de qualquer dignidade humana que ainda reste algures dentro deste fado.