Neste início de ano, voltam, mais uma vez, os propósitos bem intencionados que pretendemos. Definimos metas e objectivos que vão concentrar energias e motivar vontades para a sua concretização. Neste contexto, volta também ciclicamente à discussão esta ideia de que as escolas só para rapazes e só para raparigas acabam por ser melhores, segundo a notícia de que no top das 100 melhores escolas do Reino Unido estão 81 que funcionam com um modelo de educação diferenciada, ou seja, só com rapazes ou só com raparigas. É claro que a opção por esta forma de organização escolar depende daquilo que se pretende, se são apenas os resultados academicamente falando ou se é o desenvolvimento da pessoa do aluno como um todo. A referência a esta notícia é causa de preocupação nos dias de hoje porque, às vezes, na falta de medidas coerentes, arrojadas, sensatas e ao mesmo tempo realistas no campo educativo há sempre quem tenha esta tentação de voltar atrás, quase como quem quer inventar de novo a pólvora. A questão fundamental é saber o que pretendemos com a educação, é saber se estamos a "treinar cavalinhos de corrida" em que vale tudo para que eles tenham os melhores resultados independentemente dos custos (para eles mesmos) que isso possa representar, ou se pretendemos que a escola seja um sítio plural e personalizador no sentido de lá caberem todas as cores, raças, credos e ambos os sexos e, se desenvolver o sentido de cidadania activa, participativa e responsável. Ora essa presença em simultâneo de rapazes e raparigas não pode ser usado como desculpa para justificar uma possível distracção, mas essa convivência é, desde logo, o primeiro passo para a educação, pois durante a vida (pessoal, familiar e profissional) cada um vai viver lado a lado com outros, diferentes de si próprio e conviver com pessoas de ambos os sexos. É igualmente necessário ultrapassar o habitual "preconceito" de que as raparigas vão ser sempre certinhas, concentradas, vão sublinhar a vermelho e a azul e vão ter tudo organizadinho e os rapazes, já se sabe, são muito imaturos, desorganizados e distraem-se com qualquer coisa. Essas ideias só podem surgir em quem nunca foi professor, nem nunca viu o que é a relação que existe numa turma em que os alunos, de ambos os sexos, já se encontram juntos há algum tempo é vivem uma relação de imensa alegria, fraternidade e entreajuda. Esta realidade é inquietante na medida em que muitas dessas pessoas, apelidadas de "especialistas", que defendem esta ideia são as mesmas que se chegam à frente em algumas circunstâncias, definem orientações educativas estratégias e produzem afirmações educativas, muitas vezes, desenquadradas, infundadas e pouco sensatas. Este era o momento oportuno para as entidades competentes se colocarem no terreno e definirem parâmetros obrigatórios para que todas as escolas funcionassem no sentido de proporcionarem aos seus alunos uma educação global e plural e não dar um certo "jeitinho" à ideia de educação, afastando os alunos do mundo real. Todos sabemos que vivemos numa sociedade onde os problemas já não têm uma resposta única, lógica e verificável, mas exige-se, cada vez mais, criatividade, inovação, flexibilidade, colaboração e espírito de grupo. Ora, se é verdade que o sistema de ensino ainda está demasiado voltado para as necessidades da "Era do Conhecimento", como se os nossos alunos se movessem ao longo de uma espécie de linha de montagem, onde diligentemente se incute matemática, ciências, línguas e, em seguida, se vai testá-los para ver o quanto conseguiram reproduzir, certificando-se que foram atendidas todas as "normas" de produção, não é menos verdade que um membro de sucesso na sociedade de hoje deve trazer algo diferente para esta Então, se as pessoas são, cada vez mais, valorizadas pelas suas contribuições únicas e pela sua capacidade de pensar criativamente, de tomar a iniciativa e introduzir uma perspectiva global nas suas decisões, a escola tem de proporcionar espaços de desenvolvimento destas competências e não promover apenas uma memorização competitiva e estéril.
Marco Gomes