Luís Guilherme Ferreira Quando chegava pela primeira vez a uma escola uma das primeiras coisas que fazia era escolher um local para jogar futebol na hora do recreio, com os alunos. Tirava proveito com este procedimento pois só jogavam os que cumpriam com os deveres escolares e como todos queriam jogar, melhoravam os estudos. Em Fevereiro de 1956, depois de ter cumprido o serviço militar fui colocado na escola da Corujeira-Monte. Junto à escola estavam a construir uma estrada que reunia todos os requisitos para jogar futebol. Era plana com terra batida e não circulavam automóveis. Um belo dia, quando jogava futebol com os alunos ao dar um pontapé na bola o sapato do pé direito caiu numa levada que era muito comprida e com uma inclinação razoável. Comecei logo a pensar como ia para casa só com um sapato. As pessoas pensariam logo que o professor era maluco ou só tinha dinheiro para comprar um sapato. O meu aluno João de Gouveia prontificou-se a ir buscar o sapato pois disse que conhecia muito bem a levada que passava perto da sua residência e que havia uns ferros onde ficavam os objectos que caiam na água. Lá estava o sapato. O mais engraçado é que esse meu aluno hoje tem um táxi e todas as vezes que passa por mim grita." Senhor Professor e aquele sapato!". No dia seguinte ao ter dado uma lição de história sobre os descobrimentos portugueses em que falava de Vasco da Gama, Pedro Alvares Cabral, João Gonçalves Zarco etc., o meu aluno Daniel chegou à escola com a alegria estampada no rosto e eu perguntei-lhe qual a razão daquele contentamento e ele respondeu-me que tinha chegado a casa e tinha dito ao pai que sabia quem tinha descoberto o Brasil, a América, a Madeira, etc. E eu perguntei-lhe: o que foi que o pai disse? Meu pai disse que eu conhecia muita gente.