Lá dentro, perto da casa dos meus Pais, mas bem lá para o interior da montanha que se vê das Cruzinhas, creio que já sob o Pico das Torres, há um local chamado Fajã Escura. É uma fajã no meio de vales e montanhas, escura talvez por causa das grandes árvores e do acesso difícil. Fui lá pelo menos uma vez. Era uma ida à serra, quase um passeio para ver as cabras, que nessa altura viviam em pastoreio livre, e apanhar nozes selvagens. Lembro-me da Fajã Escura como um sítio assustador, perigoso e que representa a Madeira Velha. Afinal, quase 40 anos depois, dou comigo numa Fajã Escura em pleno Atlântico. Vim cá bater depois de 15 anos de estudos e mais de 20 de trabalho, segui as coordenadas que me deram para chegar à Singapura do Atlântico, mas aterrei na Fajã Escura. A ilha até é bonita, tem bom clima, está bem equipada, tem gente simpática e submissa mas falta muita coisa. Falta: Sentido crítico Cidadania activa Alternativa política Democracia Pluralismo Respeito pelas ideias dos outros Bom-senso com o dinheiro de todos Medicamentos a tempo e horas Cuidados de saúde Garantias de alimentação E luz. Falta luz nesta terra, senhores! Falta luz de vez em quando, em estranhos apagões que começámos a sentir quando nos apresentam a era do desenvolvimento, e falta a luz permanentemente em casa de famílias sem dinheiro para pagar a factura. Falta luz senhores políticos, governantes ou da oposição. Falta luz! Voltámos, em muitos casos, ao tempo da vela. Acabou-se o conforto da lâmpada, o microondas não anda, o ferro de engomar emperrou, o aspirador afogou-se, a varinha já não é mágica, o ‘1,2,3,’ não passa do ‘1’. A televisão nem arroz dá, o DVD ficou sem luz de presença, a máquina de barbear encravou, o aparelho de CD com rádio calou-se e até o despertador adormeceu. O frigorífico é armário de latas de sardinha e atum e outras coisas que dispensam o frio. A arca congeladora só se for para guardar roupa velha, porque não há lá nada que congelar. E os computadores não recebem emails nem os telemóveis recebem carga. É o regresso da Fajã Escura. Penso nos transtornos que a falta de luz traz às famílias e sinto-me tão perdido como naquela montanha rodeada de árvores grandes e folhagem espessa debaixo dos pés. Imagino as velas a iluminar os interruptores e as lâmpadas e tudo o que antes dava luz. Antes, quando as famílias tinham um mínimo de dignidade. Antes, quando pensavam e acreditavam e se esfalfavam a trabalhar para conseguir pagar tudo a tempo e horas. Mas isso era antes. Agora, ficaram sem luz eléctrica para ter de comer e não perder o carro ou a casa. E alguns vão ter mesmo de passar por mais essa provação numa descida vertiginosa abismo abaixo até ao miserabilismo mais rasteiro possível nesta Fajã Escura do Atlântico. Fico imaginando como reagiriam os presidentes do Governo Regional e da Assembleia a viver nesta Madeira real e profunda. Nesta escuridão total. Neste preto-breu. E de uma coisa tenho a certeza: nem a luz ofuscante dos seus telemóveis, pagos por todos nós, daria para contar os respectivos ordenados, mais as chorudas reformas, mesmo que lhes fosse entregue tudo em notas de 100 euros. Adiante. Na correria do tempo, parece que vale tudo. Até deixar para trás quem tem dificuldades e vergonha de as assumir. Na Madeira, caros senhores governantes, há famílias a viver às escuras. E não me refiro à escuridão política que há muito paira por aqui. Falo mesmo da escuridão física. Das paredes que se tocam sem se ver, das janelas com o mesmo efeito, estejam abertas ou fechadas, do regresso das velas acesas com palhetes e daquele fiozinho de luz que pode ser muito romântico mas naquelas casas não tem piada nenhuma. Prometeram-nos a Singapura do Atlântico, mas era a brincar. Isso foi só para alguns. A maioria, mesmo com luz eléctrica em casa, continua a viver na Fajã Escura do Atlântico. Entre vales e montanhas e árvores gigantes. Só de pensar nisto já dá frio e não é daquele que se pode evitar com agasalhos. É um frio interior, que vai para além da pele e dos ossos. É um frio na alma.