Martins Júnior Cerraram-se as ribaltas coloridas de Natal e Ano Novo. E Pai Natal lá foi. Pai Natal, com maiúsculas e vestes largas, vermelhas de dar nas vistas, sineta dourada fazendo-se anunciar nas praças e nas chaminés: "eu sou o tal, o Pai Natal que vos trago uma noite feliz". E por ser o tal, esqueço-o. Fico então com o "irmão natal", com minúsculas, circulando anónimo por entre a multidão, sem badalo publicitário, aquele que sabe mais escutar que bradar e faz felizes, não uma, mas as 365 noites e dias do ano, o que junta os estilhaços caídos no chão para voltar a uni-los, o silencioso arquitecto das pontes invisíveis. E tudo sem esperar canções infantis nem trompetes de fanfarra..É o "irmão natal", que nos prova que "o natal é sempre que o homem quiser". Irmãos natais são bentos por natureza. Todos são marcados pela sacralidade na pedra-de-ara do altar onde se misturam os anseios, dramas e sucessos, glórias e misérias da Condição Humana, sem fronteiras nem fissuras. A todos saúdo, mas hoje com sentida emoção a um típico "frei natal", intimamente e silenciosamente prendado, a quem foi dedicado um livro memorável (Frei Bento Domingues e o Incómodo da Coerência, Ed.Paulinas, Lisboa,2012) apresentado em Dezembro pp. na Lusófona, onde em 1998 dirigiu a organização e instalação do Curso de Ciência das Religiões. No livro e na sua apresentação desfilam vultos de primeiro brilho na actual constelação de intelectuais portugueses, desde teólogos, escritores, Professores universitários, até economistas, médicos, líderes religiosos, artistas, políticos. Mário Soares, Boaventura Sousa Santos, Isabel do Carmo, Lídia Jorge, Viriato Soromenho Marques, entre 53 homens e mulheres: cristãos, luteranos, islâmicos, agnósticos. Impressivo e emocionante o depoimento póstumo de Saldanha Sanches lido pela viúva Maria José Morgado! Para mim, que julgava conhecer Bento Domingues, foi uma revelação descobrir nessa sessão a dimensão universal de um Homem que percorreu o mundo, desde Europa, América Latina, até às mais longínquas Áfricas, comunicando, ensinando e, disse-o o próprio, aprendendo. Naquela sala, ao vivo, pareceu-me ouvir o que há 45 anos presenciara em terras da Zambézia, Moçambique, uma qualificação plenamente aplicável a Frei Bento:"Ali, todos os caminhos se cruzam e todos os corações se encontram". Pela profundidade teológica e pelo humanismo emergente da sua vida e obra, o Prof. Dr. Anselmo Borges, da Universidade de Coimbra, escreveu recentemente na sua secção semanal do "DN" de Lisboa: "Portugal tem uma dívida para com Frei Bento Domingues". E eu aponho: A Madeira também. Nas curtas vindas a esta ilha, Frei Bento tem semeado clareiras de pensamento global e alvoradas de fé teológica, transmitidas pela comunicação social livre. Em paga, um qualquer aprendiz de porta-voz da diocese foi acusá-lo, num papiro amarelado de inquisição, ao Superior Geral dos Dominicanos. Aqui, é assim que os pigmeus tratam os gigantes. Por isso, teve uma resposta à medida. A terminar - nunca termina quem começa a falar de Frei Bento - deixo a palavra que me ficou gravada, há um ano, no "comboio-alfa" entre Lisboa-Coimbra, para apresentação no Casino da Figueira do livro "Corpo e Transcendência" de Anselmo Borges. Ao meu desabafo "Frei Bento, tanto esforço, tanta luta e a ideia não se transcende e esta terra não muda", responde-me com aquele persuasivo abraço:"Pe.Martins, ao menos nós mudámos, acha pouco?!" Meu bento frei natal, Prof. Dr. Frei Bento Domingues, aceite o abraço da Madeira e a nossa gratidão nas páginas do "Incómodo da Coerência".