Janeiro não é só aquele mês que começa pleno de esperança, (ou apreensão!) e propósitos de mudança, com fogo-de-artifício, festas e passas, espumante e votos de Bom Ano, - mesmo com recessão e apocalípticos relatórios do FMI. Nos espaços rurais onde as práticas agrícolas - uma das fontes da chamada economia real, da sobrevivência e subsistência - ainda resistem, é também tempo de preparar os terrenos para as culturas da Primavera, neste Janeiro soalheiro e preocupantemente seco. Outrora o trigo já verdejaria em pão, o mesmo pão que escasseia em muitas bocas, e obriga a um retorno ao cultivo da terra, nos últimos anos abandonada às ervas daninhas, ou onde se plantou betão a granel, práticas de um certo modelo de desenvolvimento e progresso económico, mais rentáveis, dizia-se, do que o árduo trabalho agrícola de sol a sol, mas que têm vindo a revelar-se ineficazes em termos dos tais lucros prometidos... Ou quiçá não passasse tudo de mais uma espécie infestante, fruto da retórica do "país de serviços", pago para não produzir… Vem esta reflexão a propósito dos funestos acontecimentos que há seis meses assolaram tragicamente a nossa região, os pavorosos incêndios de Julho, presentes na memória e na paisagem, entretanto progressivamente coberta de manto verde e esquecimento. A vida retomou o seu ritmo normal, outras tragédias marcaram o calendário e fragilizaram populações, outras prioridades saltaram para a ribalta da gestão da coisa pública e os cenários por onde o fogo passou lá ficaram entregues ao curso cíclico da natureza. Permanecem os esqueletos das árvores queimadas e das casas por reconstruir, os silvados, os eucaliptos e as acácias renascem com força redobrada, perante o cómodo ignorar da questão. Da mesma forma que vestígios dos estragos do trágico 20 de Fevereiro e das recentes chuvadas de Novembro se eternizam na vida das pessoas directamente afectadas. Em breve teremos novamente mato para dar pasto às chamas e sobressalto às populações. Não se esqueça que nas zonas afectadas pelos últimos incêndios, poucas casas escaparam ilesas aos efeitos das chamas. Quer nas situadas paredes meias com matagal, mas também em plenas áreas urbanizadas, o fogo passou, queimou indiscriminadamente jardins e quintais abandonados ou não. De pouco valeu a resposta telefónica: "regue bem tudo à volta da casa, minha senhora!" Enquanto houve água! É parca a capacidade de aprender as lições e os alertas da natureza, ou colher as consequências das suas ocorrências. Da tragédia dos incêndios ficou a acção benéfica do fogo na limpeza dos terrenos baldios: por que não aproveitar este bem no meio do mal? Poder-se-ia cultivar muitas das terras abandonadas, mediante consulta aos legítimos donos, muitos talvez emigrados de longa data, ou pessoas incapacitadas de, por si, procederem ao amanho da terra. A constituição de hortas comunitárias, jardins agrícolas, teria o condão de conter as silvas, ajudar a manter as espécies infestantes e facilmente inflamáveis controladas e razoavelmente distantes das habitações. E os seus produtos poderiam acudir e ajudar a suprir as crescentes carências alimentares que a situação de desemprego, fragilidade económica e dependência social infelizmente presentes e reais criou, quer os nossos governantes admitam ou não! Depois dos incêndios de Julho, não é mais aceitável pactuar com a negligência e abandono de baldios e florestas, principalmente junto de espaços habitacionais, à incúria, inconsciência e desresponsabilização colectiva. E quando se poderiam converter em inestimáveis fontes de riqueza, para mais num vulnerável espaço insular, economicamente pobre e dependente - apesar da retórica do PIB - onde é reconhecidamente frágil o equilíbrio ambiental! Sobre a gestão da floresta, há uma legitimidade e responsabilidade que se impõem na sequência da consagração pela UNESCO, da nossa Laurissilva como Património Mundial. Os incêndios já a atingiram e da mesma forma que o galardão que tanto nos orgulha foi atribuído, também pode ser retirado. Para além do valor ambiental e turístico, a nossa floresta poderia converter-se num pólo pedagógico de formação e aprendizagem do respeito pela Natureza, e amor à terra, despertando a consciência para a necessidade da sua preservação como factor da nossa sobrevivência, fonte de postos de trabalho, - em vez da aconselhada emigração - na sua vigilância, limpeza, conservação e usufruto das suas potencialidades para actividades de vida saudável. Uma mais-valia económica, indissociável do "destino Madeira". As fontes de financiamento? Partilho da opinião dos que defendem uma cobrança ainda que simbólica aos que a queiram visitar, percorrer ou usufruir dos espaços nela inseridos, como as Levadas e as pitorescas casas de abrigo, - estas últimas, em tempos idos, mais acessíveis ao público do que hoje. O mecenato poderia constituir outro contributo… Ou a necessidade de repensar as opções políticas em termos de investimento de dinheiros públicos, que têm sorvido os recursos dos contribuintes, com os resultados evidentes… Os tempos exigem mudança de paradigma, a todos os níveis. Urge a consciência cívica, vigilante e interventiva do cidadão comum, mas impõe-se sobretudo querer político, acção legislativa, administrativa, fiscalizadora e actuante dos responsáveis legítimos! É tempo de semear!

Júlia Caré