Não é só a presunção de lhe chamar refundação do Estado, em jeito de embirração com o Presidente da República, que já disse não gostar da infeliz palavra. Não é só a infantilidade de achar que a vitória nas urnas (onde é que isso já lá vai) lhe dá legitimidade para mudar o estado do Estado assim como lhe apetecer e sem dar Cavaco a ninguém.
Não é apenas a mania de que, por se ter identificado uma premente necessidade de mudança, se pode aplicar uma solução rápida, mesmo que seja má. E que não seja bem discutida e analisada, em jeito de: “Pois que se a pressa é inimiga da perfeição, que se lixe a última”.
Este é o primeiro-ministro que se opôs na liderança do PSD a Ferreira Leite, que defendia a suspensão da democracia por seis meses, mas é este Governo que está a pôr em prática essa missão. E fá-lo pela calada. À espera que o Constitucional deixe passar, nem que seja por mais este ano que corre. E engenha-a com o silêncio que espera dos jornalistas. Primeiro foram as conferências de imprensa sem direito a perguntas, mesmo com tantos profissionais a insistirem que não podiam proibir as questões, quanto muito estariam no seu direito de não dar respostas.
Depois lá vieram os convites para a conferência que visa reformar o Estado num mês (até faz lembrar aqueles anúncios milagreiros de perda de peso), que afinal não era bem pública. Mas as regras foram transmitidas posteriormente, a ver se passava. E quando os jornalistas se recusaram a compactuar com tão distorcidas regras, e a notícia passou a ser a impossibilidade de noticiar as intervenções, aqui-d’el-rei, acudam-nos que estes jornalistas são uns velhos do Restelo, que estão a impedir que o país pule e avance. Como se a comunicação social tivesse a obrigação moral de se contentar apenas em ser pé de microfone deste Governo clarividente e messiânico.
Esta visão maniqueísta que opõe os que são pela reforma do Estado aos que não são, reduz a quase nada aquele que devia ser um debate sério e não apenas um caminho para cortar quatro mil milhões de euros.
Um Governo cego, surdo e tantas vezes mudo não salva ninguém, nem sequer a si próprio. “Que se lixe”, dirá ele. “Lixados”, estamos todos nós.