Deixei o Paulo e o Jorge a recolherem as cordas do canyon anterior, e fui saltando de pedregulho em pedregulho, deslumbrado pela dimensão destes e pelas encostas luxuriantes, cobertas de vegetação densa da Laurissilva. Mergulhando aqui e ali nas águas frias e límpidas da ribeira, mantive o pensamento no próximo canyon, o maior do percurso que nos levaria da levada da Rocha Vermelha ao Chão da Ribeira, no Seixal. Quando finalmente vi o Pedro ao fundo, já a preparar as cordas na amarração, parecia que o chão desaparecia, para só surgir muito mais à frente e a uma quota bem mais baixa. Pelo menos para os meus standards. Abeirei-me cautelosamente do local onde este já tinha tudo pronto para essa descida, sustive a respiração, retrocedi um pouco e sentei-me numa rocha a recuperar o fôlego. A vontade era sobretudo de voltar para trás. Mas, feita a primeira descida, já não havia retorno. Entretanto, olhei para os meus companheiros, a transbordarem confiança, segurança, anos de experiência, condição sine qua non para se lançar em semelhante empreitada, e isso de certa forma fez-me levantar e simplesmente seguir as suas instruções. Sem pensar na altura, sem reflectir que a vida dependia de duas amarrações, fixadas na rocha por mãos desconhecidas, por uma corda, um arnês, mosquetões... e lá desci. Uns míseros 38 metros, uma distância infindável para mim. Só quando mergulhei nas águas frias do caldeirão de recepção desse canyon, pude contemplar a preciosidade do local e a acção da água. Milhares de anos a esculpir rocha, a natureza que brotou por todas as encostas rasgadas, a própria água a cair, essência da vida. Foi acima de tudo um profundo privilégio poder estar ali, no coração da ilha, vendo esta manifestar-se maravilhosamente. Obrigado!
João Rodrigues, Velejador olímpico