António Ferreira Deparei-me, este sábado (12/01/2013), com uma peculiar situação. (Espero que não seja mais um indício da omnipresença de petulância política.) O uso do verbo "esperar" nasce duma singela dúvida, dum vago pressentimento. Não tenho nenhuma certeza, daí, só querer questionar. Quero inibir as incertezas que invadiram não só a minha mente, como também, muitas das mentes, que estavam a tomar um copo, nas calmas, e tiveram de interromper a descontração (num sábado, às duas da manhã.) O evento ocorreu na Zona Velha. Como já disse, eram duas da manhã, e todos os bares da zona preparavam-se para encerrar portas. - É a lei. - Esclareceu um funcionário. Infelizmente, não vi só a "lei". Vi polícias e algumas pessoas imbuídas de autoridade, vestidas à civil, chegarem a um bar, forçando (forçar pode parecer forte demais, mas lembrem-se das coimas), com solene displicência, o empresário do estabelecimento, para este convidar, com a delicadeza possível, os (seus) clientes a apressarem a ingestão das respectivas bebidas, para que ele, e a sua funcionária, arrumarem à pressa as mesas e cadeiras da esplanada. Foi isto que vi. Quero saber o que motivou as figuras da autoridade serem tão zelosas no cumprimento da lei. Soube que ocorreu uma ordem superior (bem lá de cima, quase do Olimpo) para encerrar a Zona Velha às duas da manhã. Respeito pelos residentes da Zona Velha: foi a justificação facultada. Muito bem, a imposição da lei, com tanto zelo e desvelo, foi emanada e executada em função do respeito pelos residentes. (Pessoas que, obviamente, querem dormir.) É perfeitamente razoável, sim senhor. Só que eu fui dormir a sono solto (já que não podia estar a tomar um copo na Zona Velha e não queria ir para nenhuma discoteca) e pus-me a pensar. Qual foi o desenrolar do processo que permitiu chegar a este zelo? Por acaso, foi alguma petição dos residentes? Ocorreu alguma reclamação? Primeiro ponto: quero saber se houve alguma iniciativa deste tipo. Houve? Vamos ao segundo passo: quero saber se alguém reflectiu sobre alguma alternativa que não obrigue o encerramento dos estabelecimentos da Zona Velha. Por exemplo, integrar os interesses dos residentes no dinamismo da Zona Velha. Não sei, é uma ideia. (Podem existir outras.) (As questões não só devem-se ao facto de eu querer tomar um copo na Zona Velha, depois das duas da manhã. O que penso é que isto é uma transgressão, ou seja, uma mudança das regras do jogo a meio do jogo. Muitos investiram na Zona Velha, e agora esta "lei" cai, não muito suavemente, em cima das suas cabeças. Para além do IVA e das coisas terríveis que vêm de Lisboa, há isto, que, segundo sei, não vem do continente.) É injusto. Pressinto, porém, que a esperança pode vicejar. Porque será que a esperança não pode morrer? Felizmente, a Zona Velha tem os seus heróis. Um com uma placa a homenagear o seu heroísmo. Os outros, sem nenhuma placa (mas porventura com artigos de opinião no JM a cuspirem-lhe na cara). Pessoas (que mesmo sem placas com homenagens) vão laborando, o possível, para que a Zona Velha possa manter o pulsar de vida, mesclado (claro) com alguns primados pagãos. Sim, gente sem placas ou homenagens, que só querem fazer a sua vidinha: tomar uns copos, ou abrir um espaço comercial confortável para proporcionar um ambiente para outros poderem inebriar-se com copos (tudo isto sem os intoleráveis decibéis de uma discoteca). Lembro, sem querer parecer insolente, que discotecas há muitas. Há discotecas em todo o lado. Uma Zona Velha, como a nossa, é que não. Há pessoas - chamemos-lhes, por conveniência, "turistas" - que viajam, não para ver coisas que já viram em todo o lado (como discotecas), mas para verem coisas que não existem em todo o lado (como é o caso da Zona Velha.) Os heróis da Zona Velha sabem isto. (Estou certo que tudo farão para resolver este pequeno problema institucional.) Termino, esta pueril carta, com mais uma pequena solicitação: Dra. Conceição Estudante, digníssima, louvada, magnífica Senhora, plante alguma da sua infinita sapiência, neste assunto. Faça lá o obséquio. Mantenha a Zona Velha viva, se não for pedir de mais...