Rainha do povo. Mãos nervosas ajeitam-na no seu trono, no centro do retângulo mágico. O estádio global está cheio que nem um comício, como sardinha em canastra, e quase rebenta pelas costuras. A ansiedade aos milhares cresce como uma promessa de neve, dentro e fora das quatro linhas pintadas de branco, sobre camadas de verdes. Só não cresce a relva debaixo das botas do guarda-redes; dono e senhor de outro retângulo, onde vive duros silêncios e longos aplausos. Num louco instante, o extremo-direito matou a jeito a bola no peito, junto à linha de meio-campo, num gesto soberbo, tecnicamente perfeito. Irrepreensível. O esférico escorreu suavemente à flor da relva molhada pelo sereno da noite europeia. O número 7, «imarcável» como Garrincha no seu drible oblíquo para a direita, numa vistosa e artística simulação mais de que ensaiada, num puro nó cego, escanchou o inconsolável defesa-esquerdo, partiu-lhe sem dó os rins a meio e fez-lhe, entre as pernas arqueadas, um longo túnel de mais não sei quantos quilómetros. Na bancada apinhada que se contorce e se acotovela, houve um turbilhão de ciúme, revolta e contentamento pela desconsideração; pelo efeito da jogada de bandeira servida de bandeja - obra de mestre, de antologia, do outro mundo, tirada a papel químico das sebentas pardas, envelhecidas, de velhos ídolos de outras tardes. Naquele mesmo momento - já o apito final do árbitro se desejava no bocejo reprimido da claque impaciente - estabeleceu-se um recorde de um homem só, que duraria anos e anos a fio na ilha do calhau rolado e da areia escura, prisioneira dos olhares traiçoeiros do futebol. Porventura, a ilha de Nietzsche, «desconhecida no coração dos mares longínquos.»

Juvenal Xavier - Jornalista