O título é uma adaptação de um outro título de um romance de Gabriel Garcia Márquez, não só porque vivemos na ilha uma espécie de realimso fantástico, mas também porque a realidade ultrapassa a ficção com tanta frequência que a apropriação do universo do escritor é, antes de mais, um movimento natural.
O fenómeno do realismo fantástico visita-nos com regularidade, mas a semana que agora termina foi particularmente pródiga no género. E houve de tudo, um general, um presidente que se eterniza no poder, um vereador insurrecto e posto "na linha", um comunicado fantasma e uma medalha sustentada num argumento fictício.
Esta cá tudo, basta agora misturar a voltar a dar. E é assim que o chefe de Estado Maior das Forças Armadas, sem que ninguém o fizesse prever, surge do meio do barulho e da poeira das obras da Avendida do Mar, investido no seu uniforme e nos seus títulos militares, e resolve condecorar o presidente da ilha. O espanto é só suplantado pelas razões que tal homangem evoca. O presidente, no poder há mais de 30 anos, é um homem de uma só palavra e de um patriotismo sem mácula, diz o general. O povo, ainda a fungar poeira de mais umas quantas obras sem préstimo, torce-se num incómodo silencioso e lembra-se vagamente e em silêncio de que o dito presidente até desmente à tarde o que disse de manhã e à noite o que disse em todas as outras horas do dia. Mais, o seu patriotismo é algo 'sui generis', dada a quantidade de vezes em que apela à independência da Pátria Mãe, defende revoluções, coloca em causa a 'macheza' das Forças Armadas e, pasme-se, até houve um dia em que de trajes menores mandou a Assembleia da República crescer e multiplicar-se.
Apesar de tudo, e porque o povo pensa baixinho, o presidente, ainda não refeito do peso da medalha imposts pelo general, resolve castigar o vereador inssurecto, porque este estava contra as obras que semeou na frente-mar da ilha, questionando a sua eficácia e tendo ainda a lata de insinuar que, na terra de sua majestade e de tão educados generais, ninguém vai preso pelos erros que comete, mesmo que estes sejam pagos com o dinheiro de todos.
O atrevimento teve pena máxima: expulsão da irmandade laranja que domina a ilha. Como se atreve o vereador a ser um homem de uma só palavra, não retirando, em momento algum, o que disse. Pelo contrário, ainda o repetiu em todas as horas do dia, mantendo à tarde e à noite o que tinha dito de manhã. Coisa de lesa pátria, portanto, e que choca claramente com a prática do presidente.
Confuso, o general ainda foi para casa pensar que, se calhar, a medalha estaria mais bem aplicada ao insurrecto vereador, homem de uma só palavra e que até combateu efectivamente pela pátria numa terra distante. Mas depressa se virou para o lado que lhe deu mais jeito, até porque, entretanto, alguém fez circular pela ilha um comunicado falso, que o envolvia directamente.
Como tudo, também isto iria passar, abafado pela poeira das obras e mais tarde pelos discursos da inauguração. O povo, esse, está a morrer de fome e já não tem força nem ânimo para reagir. Portanto, nada melhor do que manter a aparência de normalidade. O general regressou aos seus aposentos, o presidente limpou a medalha e colocou-a em lugar de destaque, mesmo ao pé daquele poster catita que tem na porta do seu gabinete e que deixa claro que é o detentor da única razão legal e permitida.
O reino voltou a descansar, envolto na poeira das obras e embalado pelo hino oficial: paz, pão, povo e liberdade. É ficção, mas não é esse afinal o estado natural das coisas.
Nota: qualquer semelhança com factos ou pessoas reais é pura coincidência. Este artigo é, em toda a sua extensão, uma obra de ficção, como tudo o resto.