Não gosto de futebol, e a minha proficiência no desporto já me rendeu, entre outras alegrias, um par de sapatos de pé esquerdo de presente. Tenho, sim, um interesse mórbido no meta-futebol - no futebol enquanto fenómeno e causa. E é por isso que andei colado à Bola de Ouro este ano. Havia M, com o seu recorde de golos e a liderança do campeonato, e havia R, com estatísticas bárbaras, dois títulos, e um bom Europeu. Este ano, as coisas estavam equilibradas, talvez com ligeira vantagem para R. O equilíbrio é meta-significativo. Sem factores objectivos de distinção, a eleição converte-se. Os eleitores deixam de se perguntar 'quem é o melhor?', e passam para a (muito mais meta-interessante) questão 'o que é ser o melhor?'. A conversão é o gáudio do meta-treinador de bancada, um homem que sabe como M e R são parte de uma questão maior. Como perguntar se gostamos mais de cães ou de gatos, a questão não é sobre M ou R - é sobre nós. M é o predestinado, o do jogo bonito, da beleza enquanto elegância, parcimónia; da beleza cinética, eficiente, derivada do Bom. É rápido e imprevisível, M, ao ponto de projectar uma aura de reverência debilitante. Como os idiotas aos ricos e poderosos, a equipa rodeia-o na esperança de que algo derrame das suas percussões de veludo. Suspeita: Aquilo foi um pontapé? Dá pontapés, M? Já R é homem de feitos menos líricos e menos evidentes, o preço por serem mais prováveis e, afinal, mais reais. R exagera, exorbita, reage, rebenta, grita. É homem mais directo. É homem de esforços desaguados na "equipa", um ponto muitas vezes alheio da meta-discussão. Mete porrada. É mais homem, tanto no sentido humano como másculo - o que significa, por outro lado, não restarem dúvidas quanto ao ocasional e absurdamente potente pontapé na bola. Conseguimos ver R num universo sem futebol - a sprintar, a atirar o dardo, a virar gajas, no andebol, a fechar bilhares à primeira. M é um pouco mais peculiar. É o absoluto futebolista. Num universo sem futebol, que seria M? Suplente de tango, jóquei? M é assombrado pela banalidade. Nada - nada - nele é interessante para além de ser um soberbo jogador. M parece, de resto, não conseguir reconhecer o seu dom, ou reconhecer sequer alguma coisa. Parece um daqueles miúdos que tinham falta de presença mesmo quando estavam na sala. Esta vacuidade mental, humilde por definição, terá uma explicação complexa. Mas, como com outros génios, esse vácuo não parece ser apenas o preço do talento, mas a própria essência desse talento. Já R é uma personagem no fio da tragédia. Analisando a sua história, é claro que podia ter sido outra coisa. Não teve o luxo da banalidade, R. Não onde nasceu, não na sua academia, não em qualquer momento da sua carreira. Porque R não será um produto do Destino, mas o resultado de pequenos, mesquinhos e infinitos sacrifícios diários, de votos de excelência renovados a cada oportunidade para desistir e deixar andar. Votos inacreditavelmente mais difíceis depois daquele rapaz conhecer o ronronar da Ferrari, a acidez metálica do champanhe ou o toque da pele de uma super-modelo. Com a sua suma especialização, M tranquiliza-nos. M é a nossa reconciliação com o facto de termos um corpo. M diz-nos - ou diz a este meta-treinador - "está tudo bem. Os teus dois pés esquerdos são a contrapartida cósmica para os poderes místicos do meu.". Já a vontade quebra-gelo de R perturba-nos de uma forma dolorosa - precisamos de ignorá-la para nos podermos desculpar. M transcende porque não é como nós. R transcende apesar disso. Num mundo diferente, ser como R seria "o melhor". Num mundo melhor, apesar de tudo.
Pedro Fontes