Millôr Fernandes, no seu "Pif-Paf", conta uma história muito curiosa. Tendo em conta que são imparáveis os anúncios do fim do mundo, reproduzo a história aqui sobre o juízo final de um homem rico. Tomei a liberdade de fazer as devidas adaptações ao nosso contexto económico e social. Chegou o miserável milionário ao céu e, impacientemente esperou a sua vez de ser julgado. Introduziram-no numa sala, noutra sala, noutra sala, até que se viu em frente de uma luz ofuscante, na qual pouco a pouco foi distinguindo a figura santa do pai dos Homens. Em voz tonitruante este, tendo à direita, Pedro, e, à esquerda, uma figura que ele não conhecia, julgou sumariamente dois outros pecadores que estavam à sua frente. Finalmente dirigiu-se ao milionário: - o que fizeste de bom na tua vida? - Bem, eu nasci, cresci, amei, casei, tive filhos, vivi. - Ora - disse o Senhor - isso são actos sociais e biológicos para os quais tu estavas destinado. Quero saber que bondade específica e determinada tiveste para com o teu semelhante. - Bem - disse o milionário - eu criei indústrias, comprei fazendas, dei emprego a muita gente, melhorei as condições sociais de muita gente. - Não, isso não serve - disse o Todo-Poderoso - essas acções estavam implícitas ao acto de enriqueceres. Essas, praticaste porque precisavas viver melhor. Não foram intrinsecamente boas acções, desprendidas, não servem. O milionário escarafunchou o cérebro e não encontrou nada. Em verdade, passara uma vida egoísta, pensando apenas em si mesmo. Nunca o preocupara o seu semelhante, nunca olhara para o ser humano a seu lado senão como uma fonte de lucro para as suas indústrias. Mas, de repente, lembrou-se das obras de filantropia. - Ah - disse, puxando uma caderneta - aqui está. Uma vez dei cem euros a uma velhinha que não tinha dinheiro para despachar a receita da farmácia, outra vez contribuí com duzentos euros para uma instituição que distribui refeições aos sem abrigo da minha cidade e outra vez contribuí com quinhentos euros para uma das instituições que recolhem crianças abandonadas… Nisto ouve-se um som ruidoso que bradou: - Só? - Perguntou Deus. Suavemente ouviu-se: - Só - disse o milionário contrafeito. - Josué! - Gritou o Todo-Poderoso -, dá oitocentos euros ao cavalheiro aqui e que vá para o inferno. Esta história faz-me lembrar a seguinte passagem do capítulo 5 do Evangelho de Mateus, que diz o seguinte: «Para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis demais? não fazem os gentios também o mesmo?» (Mt 5, 45-47). Moral que fica para história, dinheiro paga dinheiro, mas amor paga-se com amor. Precisamente o que mais faz falta a este mundo perdido na ilusão de que a felicidade pode ser possível só e exclusivamente na base do poder financeiro. Por isso, depois do ano de 2012 ter sido dedicado pela Comissão Europeia ao Envelhecimento Activo e à Solidariedade entre as Gerações, eis que 2013 é o Ano da Cidadania. As religiões têm, neste domínio, um importante papel a desempenhar na educação para a cidadania, que é o de promover a prática das virtudes humanas na sociedade concreta. No Cristianismo a virtude pessoal tem o seu fundamento nas palavras de Jesus, vivei o amor pelos outros e sereis felizes, a seguir distinguir bem entre César e Deus. Ora bem, um ano para que cada cidadão tome verdadeiramente consciência dos seus direitos sociais, mas também se envolva com verdade e justiça no cumprimento dos seus deveres.
José Luís Rodrigues