Oiço com frequência muito boa gente queixar-se do futuro da Madeira e embrulhar esta queixa numa desesperança aflitiva. A aflição porque passa uma boa parte da sociedade madeirense e os contornos negativos que envolvem a dinâmica da economia regional, completamente estagnada pela pressão severa sobre a sua competitividade, são razões mais do que suficientes para compreender os ditos queixumes e realçar a sua consistência. Contudo, o que mais me intriga não é a existência da queixa, mas as dúvidas que ainda persistem sobre as razões e a origem da catástrofe em que nos encontramos. Nesta altura, passado mais de um ano e meio depois da descoberta da divida oculta e dos malabarismos financeiros que atiraram a RAM para o risco de falência efectiva, ainda há quem ignore que a solução para a RAM é política. Por muitas soluções que surjam neste contexto de crise interna violenta, a boa execução dos mesmos irá sempre bater de frente com um muro governativo que roça a irresponsabilidade e a incompetência. Não se pode pedir a quem escondeu mais de 1000 facturas que agora exija aos empresários que apresentem mensalmente toda a sua facturação. Não há legitimidade que aguente este paradoxo. Não se pode pedir a quem passou mais de 35 anos a engendrar esquemas para contornar a lei, que agora se comporte dentro dos parâmetros restritos da lei. Não se pode pedir a quem reduziu o investimento público ao betão que reconfigure o padrão do investimento da região, na procura da diversificação da economia. Não se pode pedir a quem conviveu perversamente com um certo interesse privado e misturou cinicamente o interesse público com esse interesse privado que agora se liberte das amarras que criou para implementar processos que permitam recuperar a liberdade económica e dinamizar o empreendedorismo. É por tudo isto, e obviamente muito mais, que o problema da Madeira não é de falta de soluções. É de política. É urgente uma solução política que exerça a indispensável ruptura com o passado. Uma solução que afaste da governação os culpados pelos males da Madeira. A experiência da mudança nunca foi tão urgente. Mudar é o tónico da democracia e o garante do progresso.

Carlos Pereira, Líder parlamentar do PS-M