Numa das suas recentes "conversas" como Primeiro Ministro, Pedro Passos Coelho informou os portugueses da necessidade de se fazer uma "refundação do Estado". Quando ouvi isto, dei um salto na cadeira onde estava sentado e, de repente, assaltou-me o espírito a ideia de que Passos Coelho andaria a ler Confúcio. Dias depois esta "refundação" era, e só, a reforma do Estado e mais tarde o que estava em causa era a reforma do Estado Social, nomeadamente nas áreas da saúde, educação e segurança social. Por fim, todos os portugueses passaram a saber que o alcance daquela expressão tinha por objectivo último um corte de quatro mil milhões de euros nas contas do Estado para 2014 de forma a atingir os limites do défice propostos pela Troika. Porquê então este paralelismo entre Confúcio e o nosso Primeiro Ministro, tendo em consideração o pensamento político de Passos e a postura intelectual e cívica do velho mestre? Para um ex-professor da Universidade de Macau e do Instituto Politécnico de Macau que assumiu, no tempo, a responsabilidade de lecionar a História da China, para chineses, nomeadamente a cadeira "China - Cultura e Sociedade" nos últimos anos do século passado e nos primeiros deste, foi um grande desafio mas que, à partida, merecia a pena realizar. A China, hoje, consciente da importância que tem no centro da globalização, tenta alargar a sua influência ideológica revalorizando a figura de Confúcio. O regresso do velho mestre não é só revisitado pelo poder, interpela também a sociedade chinesa. Porque mais do que promover uma revisão renovada da teoria marxista, o Partido Comunista Chinês tenta sobretudo conter a cólera social. O confronto ideológico, nos tempos de hoje, no interior do aparelho do partido nem por isso é menos explosivo. Diz respeito, essencialmente, ao papel do Estado (e do partido) e ao conteúdo das reformas sociais e políticas. Isto explica, sem dúvida, a valorização de uma ideologia de substituição: o confucionismo. Como explicar que este antigo mestre da sageza, que viveu nos seculos VI e V antes da era cristã, adquira valor emblemático 2500 anos mais tarde, na China do século XXI, quando esta se encontra em plena ascensão como potência económica e geopolítica num mundo globalizado? Pois, eu próprio, tive o grato privilégio de assistir ao desencadear desta reviravolta nos anos 80 quando, em 1981 cheguei a Macau para participar num dos últimos governos da Administração Portuguesa daquele Território (1981 - 1986) e seguir atentamente toda uma evolução que tinha o seu epicentro, não nas sociedades chinesas propriamente ditas mas sim nos círculos chineses ocidentalizados e anglófonos, nos Estados Unidos e em Singapura. Nessa década o contágio atingiu a China Popular, a qual, ocupada a liquidar a herança maoista, desejava agarrar-se aos comboios do asiatismo para, a prazo, se lhes pôr à frente. O confucionismo que era vilipendiado desde há gerações, ou fora mesmo destruído, com os paroxismos de violência durante a Revolução Cultural que então estava a extinguir-se, foi objecto em 1978, de um primeiro colóquio destinado a proceder à sua reabilitação. Tudo isto, eu senti e vivi não só em contacto com as autoridades chinesas como com os quadros ocidentais que a partir de 1983, com a abertura da China e das suas fronteiras ao mundo se instalaram em território continental chinês como observadores privilegiados desta "revolução". Na actualidade, o nome de Confúcio, implicitamente associado à harmonia, funciona vantajosamente no mercado económico mas também como capital simbólico, em perfeita conformidade com a palavra de ordem oficial de estabilização social. Deste modo, a uma efigie de Confúcio, omnipresente na China actual, juntam-se os interesses da "economia socialista de mercado" e os imperativos ideológicos da "sociedade de harmonia socialista", designação tão ao gosto dos dirigentes chineses actuais. É neste contexto, e de uma crise profunda na União Europeia, que vimos surgir lideres verdadeiramente medíocres nos países europeus, nomeadamente em Portugal. É também neste contexto que surge "a convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do estado e das redes de solidariedade da sociedade civil, bem como dos direitos e deveres sociais" como criticou o Papa Bento XVI na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, na qual propõe um novo modelo de desenvolvimento e economia: "Olhando numa outra perspectiva o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com a dádiva de si mesmo, dos seus intelectuais, da própria capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento económico e sustentável, isto é, autenticamente humano, tem necessidade do princípio de gratuitidade como expressão de fraternidade e de lógica do dom." Em sentido contrário e numa lógica de valorização de uma economia de substituição (neoliberal) Pedro Passos Coelho procura centrar o debate nas questões sociais do Estado. Neste sentido, fica claro que a crise é uma oportunidade para impor uma agenda ideológica (neoliberal) que tem como ambição diminuir as responsabilidades públicas nas áreas sociais. Sob a atraente aparência de concisão e simplicidade, trata-se na realidade, de uma leitura pretensamente consensual, a qual, segundo os seus detratores, tenta silenciar a crítica ao poder politico reduzindo tudo a mensagens ditas humanistas como no "discurso" confuciano - a "um caldo de galinha para a alma", em perfeita conformidade com a palavra de ordem oficial de estabilização social de um pais que empobrece de forma galopante. De facto o paralelismo entre o pensamento de Passos Coelho e Confúcio reside no facto de ambos, no mínimo, serem profundamente conservadores e retrógrados com a diferença temporal entre ambos de 2500 anos.
J. A. Roque Martins