Comecemos por cima, pelo Presidente da República. O homem que se fez político à custa de milhões de contos da CEE, a figura austera que não tinha dúvidas, raramente se enganava e nunca lia jornais, é o expoente máximo do sentimento de demissão que atingiu grande parte dos portugueses. O Chefe de Estado demitiu-se mal tomou posse. Não disse a ninguém e poucos perceberam, mas é claramente um Presidente com funções suspensas e muitas dúvidas em coisas sérias. O cidadão Aníbal parece até capaz de discordar do Presidente Cavaco. E acredito que há brigas entre eles. Quando confrontado com o resgate do País, com a intromissões, com negócios obscuros deste e de outros governos e agora com um Orçamento que dá cabo de muitas das conquistas das últimas décadas, o cidadão reclama, mas o Presidente afasta-se. Pior: o Presidente aprova o Orçamento mas o cidadão pede ao Tribunal Constitucional para ver se aquilo é mesmo legal. Resulta desta atitude uma clara demissão, um lavar de mãos. O primeiro-ministro não faz a coisa por menos. Passos Coelho, Pedro para os portugueses, tinha todas as certezas do mundo. Sabia o que queria e para onde ia. Sabia que não ia aumentar impostos nem privatizar à louca. Até sabia que nunca por nunca ia culpar o anterior governo pelo estado do País. Tomou posse e transfigurou-se. Quer à força toda ser o melhor aluno de uma Europa em cacos, mesmo que as boas notas sejam conseguidas à custa do sacrifício dos que o puseram lá. Mas, no fundo, Passos Coelho não é bem um primeiro-ministro. É uma figura de segunda ou terceira linha. Primeiro estão os ‘senhores do fraque’ da 'troika', que é quem realmente manda no País, depois estão os figurões daquilo a que chamam os partidos do ‘arco do poder’ e só depois está o nosso Pedro. Na verdade, o primeiro-ministro parece mais um gestor de loja, daqueles que o Pingo Doce mostra à entrada de cada supermercado. E tem em Vítor Gaspar, Miguel Relvas, Paulo Portas e outros ministros os ‘empregados do mês’, como mostram os hotéis. Em Janeiro de 2013, por exemplo, a ‘empregada do mês’ é Assunção Cristas. Não pelo que fez a ministra responsável pelas pastas da Agricultura, do Ambiente, do Ordenamento e do Mar, mas pelo que fez na sua vida doméstica: está grávida e pronto. E ninguém de bom-senso crítica uma mulher grávida de 12 semanas e não sei quantos dias. O presidente do Governo Regional é outro demitido. De umas coisas literalmente demitido por quem manda mais do que ele, de outras demitido por vontade própria. No primeiro caso, foi claramente afastado, há muitos anos, de qualquer cargo importante de dimensões nacionais. Bem se esforçou, mas o máximo que conseguiu foi ser uma espécie de Tino de Rãs nos congressos do PSD. Deu uns ‘cacetes’ na política nacional e depois voltou a partir pedra cá na aldeia. Entretanto, esteve sempre na ribalta com a mesma convicção com que se demitiu de tudo o que fosse complicado. É certo que apenas assinou uma folha de demissão, em 2007, num golpe de génio que o mantém no poder até hoje, mas não deixa de ser um líder que se afasta de tudo o que pode dar sarilhos. Demitiu-se da fusão de clubes, não mexe nas freguesias, não tem responsabilidades em nada de mau que acontece nesta terra e é o responsável por quase todas as obras públicas e privadas que por cá se fizeram. Quase todas. O presidente não tem nada a ver com a marina do Lugar de Baixo, com o heliporto que serve de poiso a gaivotas e outras aves, com os centros cívicos às moscas ou os parques em pasto. E também não tem nada a ver com negócios estranhos. Nem com os que foram conhecidos e julgados, nem com os que hão-de vir. E nem lhe falem em dívida escondida que ele jura que não sabe nada disso. Dele, só a ‘carne’. Os ‘ossos’ são por culpa dos madeirenses mal agradecidos, de Lisboa e da natureza, essa ingrata. O bispo do Funchal também não tem nada a ver com o que se passa na sua Diocese que vá para além do beija-mão e do lava-pés. D. Teodoro Cavaco sabe a solução para a paz no Mundo, reza por ela, sorri para todos nós (ou de todos nós). Mas vive no aconchego do Paço Episcopal. De vez em quando sai para pregar e faz que não vê que outros lhes estão a pregar partidas todos os dias sob a sua bênção ao escândalo do Jornal da Madeira. É um bispo resignado, de braços cruzados e perna traçada numa poltrona de onde às vezes vê, lá ao longe, uns pobres. Intervir, denunciar, reclamar? Não. Isso dá trabalho e complicações. É um bispo demitido Da longa lista de demitidos temos o mais recente caso: Henrique Costa Neves. Criticou, pensou de forma diferente, tem outra visão para a cidade do Funchal, então é motivo mais do que suficiente para ser posto na linha, como disse ontem o bondoso e cristão Jornal da Madeira. O vereador é posto na linha por uma razão simples: é um osso duro de roer e não se agacha, nem se põe de cócoras. Deste caso em concreto permito-me fazer uma advertência aos social-democratas mais submissos, aqueles que comem e calam: lembrem-se que desta vez foi Costa Neves, da próxima pode ser qualquer outro. Finalmente, e para abreviar tantas outras demissões, temos a demissão colectiva. A verdade é que grande parte deste País, e particularmente desta Região, há muito apresentou carta de demissão da sua mais básica condição de cidadania. Salvo raras excepções, logo conotadas com perigosos comunas e extremistas selvagens ao serviço de outros, a esmagadora maioria dos portugueses da Madeira optou por um de dois caminhos: ou assinou procuração de plenos poderes da sua condição de cidadão com direitos, ou permitiu que lhos tirassem por usucapião. Sim, porque quem abdica da sua personalidade, do seu pensamento, das suas convicções e valores durante quase 40 anos, é natural que perca direitos de cidadania. E estamos nisto, num País de demitidos. Muitos pela força do patrão em crise e mais ainda por si próprios. A maioria espera que outros façam aquilo que não eles querem fazer. Que outros protestem, que outros se exponham, que outros esperneiem. A mesma maioria até diz que concorda com as críticas, até dá, em privado, palmadinhas nas costas e aplaude em silêncio. Mas, de uma forma geral, esta sociedade demite-se. Ou é demitida.