Susana Viríssimo Mas porquê tantas reclamações num país de sabichões? Mas por que razão tantas famílias portuguesas se queixam nas cada vez menos fartas mesas das suas humildes cozinhas? Porquê? Que ingratidão num país sem podridão! Quase todos os profissionais reclamam da drástica e galopante redução das regalias salariais e laborais há muito legitimamente adquiridas! Então porquê ingrata gente num país tão inteligente? Até as mentes que se julgam iluminadas criticam as medidas adotadas pelo nosso (DES)governo que tão sabia e humanamente nos governa! Ingratidão! Que dor poderá nos provocar no peito um governo por nós eleito? Os jovens outrora estupidamente apelidados de geração rasca pelos adultos iluminados sentem-se agora à rasca! Ingratos jovens que se dão ao desplante de se queixar das queixas dos seus pais! Choram quando os vêem partir na árdua e ilusória tentativa de adquirir um sustento que aqui não encontra fundamento; os pais despedem-se dolorosamente ao verem os seus filhos partirem por não conseguirem emprego na Pátria que os viu nascer! Que pais insensatos que não percebem que os seus obedientes filhos estão a cumprir os conselhos gentilmente dados pelos nossos senhores governantes! O comum cidadão, por pura ingratidão, interroga-se ignorantemente sobre a adopção das medidas de austeridade mais austeras do que a incompreensível austeridade proposta pela tão austera e benevolente troika? Os que por opção se tornaram subsídiodependentes também se queixam e imploram aos deuses que o povinho trabalhador, justo e honesto preserve o seu postozinho de trabalho para que, com o seu enorme desconto, esse bom povo possa continuar a sustentá-los! Até os pedintes se queixam da falta de solidariedade do povo que já nada tem para dar! Os políticos da oposição queixam-se da coligação do governo; o governo queixa-se da oposição ameaçando com a tão temida (ou desejada) crise política; o povo queixa-se do governo e da oposição que parece desconhecer o verbo do qual deriva o nome oposição! Se conhecessem o verbo entrariam em ação! Mas Deus meu, de que se queixa toda esta gente? Se não há oposição, contentemo-nos com a poderosa ostentação! Caramba! Sejamos sinceros: que excesso de queixas! Que povo ingrato, queixoso, choroso e desgostoso tão bem governado por um Estado desastroso mas arrogante e orgulhoso! Perdoem-me compatriotas mas a verdade é para ser dita: os portugueses são, de facto lamentavelmente muito queixosos e muitíssimo mal agradecidos! Como diz o Excelentíssimo Sr. Dr. Vitor Gaspar "somos um povo Bom!", muito bom mesmo! Sim, um povo bom a aceitar, um povo bom a calar; um povo bom a se lamentar; um povo bom de manipular! Nobre povo, está na hora de mudarmos de atitude e mostrarmos que a bondade não é a nossa melhor qualidade! Somos um povo de luta; um povo de e com História; um povo que ainda se recorda das famosas expressões: "A união faz a força!" e "O povo unido jamais será vencido"! E mais não quero nem posso dizer pois a liberdade de expressão e a democracia muitas vezes são apenas sinónimo de pura utopia e demagogia para calar um povo que, continuando apenas a se queixar, só poderá sobreviver por forte magia ou por negra bruxaria!