“É mais ou menos como se tivéssemos uma faca à cabeça e não sabemos quando é que cai”. O telefonema era para os típicos votos de um bom ano, mas a conversa rapidamente ficou escura. Da última vez que tínhamos conversado, o meu amigo, que tem filhos da minha idade, ponderava a emigração, onde já esteve anos a fio. Não por ele, que a vida vai correndo e tem emprego, mas para ajudar os filhos “que precisam”. E quando lhe perguntei se essa hipótese ainda estava em cima da mesa, respondeu-me com a frase que ainda hoje ecoa na minha cabeça.
Incomodou-me a incerteza, mas ainda mais a condenação a uma pena por um crime que não me parece que tenha cometido. A não ser que trabalhar para si e para a família seja viver acima das possibilidades, que não se medem aos bifes.
Uns dias depois, leio que o ano passado saíram 3000 jovens da Madeira para fugir à crise. Não me surpreendeu, porque se tiver como amostra o meu próprio grupo de amigos de infância, vejo que são quase tantos os que saíram à procura de novas oportunidades, como os que ficaram. É vê-los a carpir as mágoas da saudade nas redes sociais por não terem podido passar as festas na sua terra.
E os que por cá ficaram, partilham, na sua grande maioria, da mesma incerteza. É ver o pânico, mal disfarçado, dos professores perante o relatório do Fundo Monetário Internacional que receita a dispensa de tantos profissionais como caminho para a nossa redenção. Pecadores! Noutros sectores o cenário é mesmo. Imobiliário, construção, comércio automóvel, banca...
Ninguém sabe bem o que esperar do ano que começa, apenas sabe que não augura nada de bom. E agora que as passas de uva da meia-noite amargaram na boca, volta o medo e a intranquilidade que não ameniza com um Governo, que até pode ter diagnosticado o problema, mas está a matar o país da cura.
São os quatro mil milhões de euros (um valor abaixo do total da dívida da Madeira) extra que precisam de ser cortados à despesa do país para cumprir números. É mais ou menos como no filme Apocalypto, de Mel Gibson, em que é dada à personagem principal a possibilidade de correr pela vida, enquanto são disparadas balas.
E ainda a procissão vai no adro. Daqui a uns meses são as previsões que falharam e as necessidades de mais medidas correctivas. É torcer para que nessa altura ainda haja um país para sacrificar e que não esteja imolado na cruz dos bens comportados.
P.S. Enquanto isso as pessoas insurgem-se contra a morte do cão que atacou a criança ou contra a miúda que almeja uma carteira em 2013. Distraem-se ainda com a Casa dos Segredos. Aqui faz lembrar o Titanic, o barco afunda e a banda toca.