Confesso que estremeci quando ouvi o presidente dizer: “A culpa não é minha”. E disse-o assim, aparentemente confortável e convicto, perante um grupo de dirigentes sindicais e partidários que o apupavam à porta do Governo Regional. Falava desviando o assunto para o regime político em Portugal mas, mesmo assim, quem governa 36 anos seguidos só tem o mérito de 44 vitórias e não tem culpa de nada do que correu mal? Estranhei e imagino que alguns dos seus correligionários, obrigados a cumprir ordens de cima tenham, mais uma vez, entranhado. Mas esta estratégia de lavar de mãos não surge do acaso, não resulta de um comentário irreflectido. Nada disso. Ela é produto de uma esforçada tentativa de lavar uma imagem que perde brilho todos os dias, de uma imagem que, ao pensar que ainda se basta, afinal, cada vez mais se gasta. E a comprovar isso mesmo tivemos outra declaração do mesmo personagem, poucos dias depois, naquela espécie de entrevista na RTP1. Entre tantos salamaleques e sorrisos e mãos que se tocavam sem se interromper, o entrevistado disse clara e calmamente que quando se descobriu a dívida escondida, ele não sabia de nada. Mais: disse que foi aí que quis saber de tudo para ter tudo direitinho. Mais uma vez disse que a culpa não é dele. Mais uma vez disse que a culpa é dos outros, que lhe cedem aos caprichos, dos que lhe abanam afirmativamente a cabeça por coerência, convicção, admiração ou medo de passar para a nova ‘profissão’ de desempregado político. Curiosa designação tão ostensivamente dita por quem praticamente não fez outra coisa na vida além de ser empregado político. Lembro-me agora destes dois casos concretos e ainda bastante recentes mas sei que há muitos outros onde o presidente afasta de si qualquer responsabilidade no que corre mal. Lisboa, ‘troika’, jornalistas, maçonaria e outras rebuscadas invenções servem para justificar tudo o que não interessa assumir a paternidade. E a receita é tão simples que faz lembrar a das crianças que andam aos pontapés à bola e há um que é rasteirado. Normalmente, o dono do pé faltoso é o primeiro a dizer: não fui eu!. Claro que foi. Lembro-me agora de uma das primeiras formas de pressão que senti quando era ainda um jornalista estagiário. Indicado para acompanhar uma acto oficial, acho que uma inauguração de meia dúzia de linhas de telefones fixos, como era frequente há quase 20 anos, estranhei, e escrevi isso mesmo, o facto de o presidente chamar apenas a si o desenvolvimento que se começava a notar na Madeira, ignorando o papel dos secretários e directores e autarcas. O sucesso não era do seu governo, não era do seu PSD, não era do povo madeirense. Nada disso. O desenvolvimento era obra sua. Eu fiz isto e aquilo, dizia já nessa altura. Escrevi e sei que a Quinta Vigia não gostou. Passados tantos anos, noto que essa técnica ainda persiste. O presidente é rápido a dizer que foi ele que deu as quarenta e tal vitórias ao PSD, mas nunca disse que foi ele que perdeu a Câmara de Machico ou a do Porto Santo, embora diga que foi ele que as reconquistou. Mas há, nesta estranha relação com as vitórias próprias e as derrotas alheias, uma ponta de verdade. De facto, parte do mérito de algumas vitórias é justo que lhe seja atribuído. Da mesma forma que temos de reconhecer que as culpas não são apenas do presidente. São também, ou essencialmente, de quem o mantém lá. Em última análise, de todos nós!