Existe um número crescente de portugueses que se sentem afastados da vida política nacional e, acima de tudo, dos políticos. Estes, por sua vez, apontam argumentos de natureza económica para legitimar posições que ou não obtêm o consenso social alargado necessário a uma eficaz aplicação (mesmo que estando já vagamente aludidas no seu programa eleitoral) ou que não figurando nas propostas apresentadas eleitoralmente são impostas em nome de um futuro melhor e livre de dívidas. As questões económicas não são dogmas teológicos e, como tal, podem e devem ser discutidas de modo a encontrar alternativas mais racionais e objeto de consenso alargado tendo em vista os ganhos futuros que com elas se pretendem alcançar. A questão é que neste processo de austeridade e ajustamentos orçamentais os portugueses não sentem estar a ser envolvidos e respeitados. Temos da democracia as eleições livres, mas depois de feita a escolha de um programa eleitoral, os eleitos consideram-se mandatados para fazerem o que lhes apetece, descurando tudo aquilo que propuseram e que deveriam concretizar. Imediatamente após as eleições, descobrem que a situação em que o País se encontra é bem pior do que pensavam e, como tal, não podem cumprir o programa eleitoral. Ao tomarem consciência desta situação deviam, a meu ver, pedir novas eleições agora com programas ajustados à realidade. O meu voto e os dos portugueses não foi num conjunto de pessoas para decidirem por nós as questões económicas ao arrepio de consensos e até mesmo das ideologias dos partidos que sustentam a governação, mas sim num partido que apresentou um programa e o deve respeitar. Só assim faz sentido a democracia assente em partidos, pois em alternativa podíamos ter uma democracia assente em individualidades em que o nosso voto seria naquele que achamos que melhor se identifica com o nosso modo de pensar e sentir. Democracia e economia não são realidades separadas e é saudável que o aprendamos (se é que ainda não o fizemos nos 38 anos de Democracia em Portugal), pois, só assim um futuro económico melhor que envolva todos pode ser construído.
Pedro Telhado Pereira, Professor Catedrático da Universidade da Madeira