Foi uma semana 'horribilis' para o governo e para os portugueses. Tudo correu mal. Pior era impossível. Nestes poucos dias o governo perdeu mais do que num ano inteiro. E não ganhou nada. A declaração do primeiro-ministro, anunciando novas medidas de austeridade, foi um desastre. Pela forma e pelo conteúdo. As medidas anunciadas são erradas, porque vão aprofundar a crise, e são injustas, porque não merecemos este 'massacre fiscal'. A autêntica 'overdose' de austeridade só vai, naturalmente, provocar mais crise. Os portugueses e as empresas portuguesas não podem dar mais ao Estado. O Estado é que tem de gastar menos. Tudo o que não respeite esta equação origina maus resultados. Péssimos, aliás. A economia portuguesa precisa de mais dinheiro e o Estado menos. Pois as últimas medidas indicam precisamente o contrário: mais receitas para o Estado e menos para os portugueses. Além disso a medida de diminuir a TSU (Taxa Social Única) às empresas vai, na melhor das hipóteses (é a opinião do ministro das Finanças) diminuir o desemprego em 1%. Só falta saber em quanto é que vai aumentar. Ridículo. Além disso, nunca esta teoria foi aplicada. Estamos portanto perante um experimentalismo e a ser cobaias de um devaneio (a Irlanda, por exemplo, recusou). Já o aumento da TSU para os trabalhadores é de loucura, pois retira mais um vencimento aos portugueses. Os reflexos destas medidas - que tenhamos a esperança que o bom senso vai imperar e que não serão implementadas - serão sentidos no mesmo ano em que os portugueses deixam de poder descontar no IRS as despesas com a saúde e a educação e também no mesmo ano em que vamos sentir um brutal aumento do IMI. Além disso, o governo quer mexer nos escalões do IRS. Quase tão mau como as medidas foi toda a comunicação governamental à volta do anúncio. Foi uma autêntica sexta-feira negra. Depois de anunciar as 'terríveis' medidas aos portugueses, o primeiro-ministro foi ao teatro. Era vê-lo a cantar 'Nini nos seus 15 anos'. Que falta de bom senso. Na mesma altura o número dois do governo, Paulo Portas, estava no estrangeiro e poucas horas depois partia o ministro político, Miguel Relvas, para o Brasil. Más coincidências. Era de facto um primeiro-ministro só e abandonado. Só que o horror continuou. Na terça foi a vez do inarrável ministro das Finanças. Esperávamos que explicasse as medidas do primeiro-ministro. No entanto, não foi isso que aconteceu. Vítor Gaspar ainda veio anunciar mais medidas de austeridade a juntar às da sexta. Pior era impossível. Então por que é que o primeiro-ministro não as anunciou todas, três dias antes? Basta ler o mais básico e medíocre livro de Ciência Política - o Príncipe de Maquiavel - para aprender que "as más noticias devem ser dadas de uma vez e as boas aos poucos". Pois o governo não tendo boas preferiu dar as más aos poucos. Naturalmente que a grande explicação para esta falha está no facto de estas medidas não terem sido suficientemente pensadas, confrontadas e testadas. Tudo tem um ar de grande fragilidade, amadorismo e pouca consistência. Além disso, com este tipo de medidas o governo perde a sua base de apoio. Os liberais não podem aceitar estes atentados contra os contribuintes e empresas a favor do 'monstro' Estado; os democrata-cristãos e social-democratas também não podem aceitar esta insensibilidade contra os mais desfavorecidos e contra a depauperada classe média portuguesa. O governo conseguiu mesmo o pleno: parceiros sociais (sindicatos, patrões, associações profissionais), partidos políticos essenciais (destaque para o PS), o parceiro de coligação (PP), Igreja, etc, todos contra o governo! Basta ver as manifestações que decorreram no sábado com centenas de milhares de portugueses (muitos da área do governo) a protestarem contra o governo e mesmo contra a situação. É bom que se tenha presente que austeridade sobre austeridade é mau e que sem apoio popular, por melhores que sejam as medidas, é difícil que elas sejam bem-sucedidas. Por fim, é preciso identificar e castigar o responsável por todo este 'filme de terror'. Que se substitua o ministro das Finanças. Que se corrijam as medidas anunciadas. Que se prepare um bom e realista orçamento de Estado. E que se siga em frente... Outra reflexão: as manifestações do passado sábado demonstraram que os portugueses são de facto um povo superior e bastante civilizado. A forma cívica - naturalmente bastante contestatária - com que se manifestaram deve-nos encher de orgulho. Infelizmente, muitos dos políticos têm abusado desta forma de ser. Deveriam estar mais atentos, porque estas manifestações cívicas além de não serem marcadas por partidos políticos são recados sérios para os que nos governam. Os tempos mudaram. E mudaram mesmo. O futuro próximo não pode ter nada a ver com o passado recente. É isso que o povo está a dizer de uma maneira nobre e civilizada.
Paulo Neves