Nestes tempos de retorno às tarefas escolares queria trazer à reflexão a questão do "regresso" em força, ao sistema educativo, do ensino profissional e o anúncio que haveria interesse em passar para esse ensino muitos dos alunos (cerca de 50%) que actualmente frequentam ou vão frequentar o ensino secundário nos chamados cursos científico-humanísticos. Compreendo que haja a necessidade de reforçar a presença do ensino profissional ou profissionalizante no contexto escolar e aceito que se diga com enfase que ele dá equivalência ao 12º ano, embora fosse importante dar a conhecer os actuais números dos alunos que estão no ensino profissional e que, com as notas que conseguem nesse mesmo ensino, entram nas suas primeiras opções quando se trata do acesso ao ensino superior. Neste contexto, tenho receio que se acene com uma promessa (acesso ao ensino superior) que depois, em termos práticos, raramente possa ser levada a efeito. É verdade que certamente todos conhecemos pessoas, pais e encarregados de educação, familiares e outros que fazem orientação profissional, que acham que a via cientifica é mais prestigiante e, às vezes, bloqueiam uma saída que pode ser importantíssima para os filhos. Há uma fase em que olhar para uma via de estudo que apresenta uma vertente mais prática pode ser uma forma de desbloquear uma situação de "ódio" ao estudo. Mas nesta perspectiva já não estamos a falar especificamente de ensino profissional mas sim de métodos de ensino que são diferentes e que deveriam ser mais adequados à realidade dos adolescentes de hoje. Porém, é mais uma vez em cima do início de mais um ano lectivo que se acena com este aumento de vagas para as vias profissionais. De repente começa-se a falar também da possibilidade de entrar nesta via não só depois dos 15 anos mas a partir dos 10 anos. Nestas circunstâncias manifesto um grande receio que à boleia de uma solução como esta se esteja a criar, de facto uma discriminação, uma discrepância em relação a um conjunto de alunos que ao entrarem neste via de ensino aos 10 anos tenham no 12º ano reunidas as condições indispensáveis para, se for esse o caso, entrar no ensino superior. Além disso, convém referir o seguinte: quais os critérios para que os alunos aos 10 anos escolham esta via, e escolham o quê? É sempre a mesma coisa, tipicamente portuguesa de colocar a carroça à frente dos bois, de não se discutir as coisas no momento certo, de não se pensar com tempo. São medidas tomadas em Julho para entrar em vigor em Setembro. Ora, como é possível num mês fazer mudanças de tal profundidade e grandeza que implicam um novo paradigma educativo, se as escolas não mudaram, os professores são os mesmos e as estruturas são iguais? Outro aspecto parece ser ainda muito relevante, fala-se mesmo na possibilidade de existir uma bolsa profissionalizante no valor de 180 euros a atribuir aos alunos que frequentem esta via de ensino. Esta situação levanta, desde logo, uma dúvida: estamos ou não a falar de ensino obrigatório? Ora se o ensino é obrigatório porque é que se abre esta janela de oportunidade para uns alunos receberem essa bolsa, isso parece indiciar e deixar passar a ideia que afinal essa via não é bem um ensino equiparado ao outro, mas para o aluno que o escolheu não ficar tão prejudicado fica aqui uma espécie de rebuçado (esta perspectiva não é aceitável). Além disso, se um aluno optar por essa via profissional porque está com dificuldades ou porque os pais não têm dinheiro para o manterem na via científica, é como se fosse para uma via escolar de segunda categoria. Convém igualmente não esquecer que existem em Portugal cerca de 300 mil jovens que nem estudam nem trabalham. E de repente diz-se que entre os 15 e os 24 anos vai-se criar essas vagas. Onde? Nos grandes agrupamentos onde estão os alunos a partir dos 10 anos de idade? Mas, com que enquadramento? Tudo isto parece ser feito tão no ar, tão em cima dos acontecimentos que, em determinada altura, por mais que possam ser projectos com pernas para andar, ficam coxos porque parecem muito pouco estruturados e com uma aparência de pouca seriedade. Uma alteração desta grandeza não pode ser meramente cosmética, mas merece certamente mais reflexão e mais tempo.

Marco Gomes