O ano letivo começa numa conjuntura difícil. Se, paralelamente à missão de educar e ensinar, as escolas já assumiam um papel social importante junto dos alunos e das suas famílias, hoje, essa tarefa ganha novas responsabilidades tanto para o pessoal docente como para o não docente. Muitos alunos chegam à escola com os pais no desemprego ou com salários em atraso, outros com uma remuneração que não consegue cobrir as despesas lá de casa. Como é óbvio, ninguém aprende com fome ou num estado psicológico demasiado transtornado. É cómodo um governante impor medidas de austeridade sem olhar nos olhos de quem sofre, longe da realidade concreta que chega todos os dias e a todas as horas às salas de aula. Falam de números, estatísticas, percentagens e cortes salariais, mas as pessoas significam mais do que esse rol aritmético. Pode passar despercebido aos desatentos, no entanto, as consequências dessas atrocidades políticas recaem todas dentro da escola, nos corredores, nos pátios, nos recintos desportivos, nas cantinas e no meio envolvente. Um dos primeiros recursos destes alunos são os professores porque eles não se limitam a ensinar conteúdos programáticos, assumem, com todo o seu profissionalismo e humanismo, também o papel de educadores, de formadores para a cidadania, de mediadores de conflitos, de psicólogos, de assistentes sociais, de pais e mães, em bastantes situações. Enquanto os professores continuam a responder com a moeda da dedicação aos seus alunos, o que faz o Ministro da Educação com a sua visão redutora do ensino? Restringe o número de professores por escola e aumenta o número de alunos por turma. Corta nos salários dos professores e reduz os recursos financeiros e pedagógicos da escola. Retira dos currículos as disciplinas que ajudam os alunos a adquirirem as competências do saber fazer e reduz a utilização da experimentação nas aulas de ciências.
Rui Caetano - Professor