Ao texto de Nuno Nunes, da passada 5ª feira, fui buscar o que me apetece dizer - Raios os partam! As últimas medidas são ainda mais dramáticas e o governo anunciou-as sem ter discutido com ninguém, embrulhando tudo num discurso monocórdico, enfadonho, recheado de termos técnicos, para melhor nos perdermos na enormidade de penalizações que descarrega sobre a maior parte do país. Como se achasse - e acha - que está acima de tudo e de todos! A inversão que quer definitiva das comparticipações para a Taxa Social Única, com a transferência directa do trabalho para o capital, é uma opção ideológica: o governo não só quer empobrecer os trabalhadores e o país, como quer fazê-lo por muito tempo. Os baixos salários comprometem as já debilitadas finanças das famílias, destroem a estabilidade social, são desastrosos para a economia, levam à quebra do poder de compra, além de que não constituem factor de competitividade, nem contribuem para a sanidade das finanças públicas. Diz o ministro Gaspar que «a descida da TSU funciona muito bem nos modelos utilizados na Universidade». Mas a vida real é outra coisa e, pelos vistos, a macroeconomia não se ensaia, com êxito, em programas e modelos universitários; ou então, o mínimo a dizer é que os economistas deviam chumbar todos já que, na vida e nos países, os resultados estão à vista. E a menos que se queira continuar a baixar salários até os igualar a economias como a chinesa, devíamos já estar a apostar em criar um país que se diferenciasse pela qualidade, pela formação profissional, pelo crescimento. Pela inovação e pela competitividade. Porém, desconhecem-se ideias sobre a elaboração de consistentes projectos de investimento; a revitalização dos sectores primários; a aposta em energias alternativas (substituídas pela "caça" ao petróleo em Alcobaça). Medidas que impeçam a sangria dos nossos cientistas e dos nossos investigadores. Mecanismos para apoio à criação de emprego e à qualificação, para que o país possa sair da situação em que se encontra, deixando de ser um dos que apresentam as maiores desigualdades sociais, com um interior cada vez mais deserto e com os mais pobres e a classe média sempre a serem os mais-à-mão para esmifrar. Nada! Apesar da arrogante declaração do primeiro-ministro de que «foi eleito para pensar». E não foi: eleito, foi para governar; que pensar, pensamos todos. Passos evidencia uma imensa insensibilidade quando se refere aos reformados e pensionistas que, na sua esmagadora maioria, trabalharam toda a vida descontando o que a lei impunha, na contrapartida da segurança na velhice. Além disso, insulta toda a gente ao dizer que vamos no bom caminho - que poupamos e até já se gasta menos nas farmácias. Pois gasta, mas porque milhares de pessoas não têm dinheiro para pagar os remédios e os deixam no balcão. E não é mais poupança, é viver todos os dias pior, é caminhar mais depressa para o fim, e em condições angustiantes. O primeiro-ministro devia ter vergonha na cara. Não admira, por isso, a dimensão da revolta popular expressa em manifestações em todo o país - não me lembro de números da ordem do milhão de pessoas, desde há muito tempo. E ainda no sábado me arrepiei quando vi uma fiada de cães na escadaria da Assembleia da República. Um 'filme' que já vivi, elucidativo de uma democracia que, verdadeiramente, não temos. E por aqui, na Madeira, não estamos melhor - para além da continuada culpabilização de terceiros pelo desgoverno regional, da austeridade triplicada em consequência de uma gestão criminosa dos dinheiros públicos (os Açores mostram como é possível - seguindo os mesmos princípios da autonomia regional - fazer melhor: menos de metade do desemprego, uma dívida pública 2.7 vezes menor, impostos em média 25% mais baixos, um empréstimo de 150 milhões contra os 1 500 milhões de euros da Madeira), o chefe do governo regional delira: só o 'decoro institucional' o 'impediu' de ir à manifestação que juntou no Funchal cerca de 5 000 pessoas. Decoro? - pergunto-me o que será, para ele, o decoro… Ah! Mas não seja por isso - a gente perdoa a falta de decoro e está já convidado para a próxima; assim já pode ouvir, de vivo ouvido, algumas coisas, a mais suave das quais foi «Jardim para a rua / A Madeira continua»! Esta gente, toda esta gente, não presta mesmo e não há como dizer de outro modo - raios os partam.
Violante Saramago Matos