O pior que pode acontecer a um Povo é ter governantes que não o conheçam. Presidentes, ministros, secretários, autarcas que não façam a mínima ideia de como vivem, o que pensam e sentem aqueles para quem devem trabalhar. Quando isso acontece é um desastre e está pronto o cenário para as maiores injustiças e decisões estúpidas. Para mal dos nossos pecados, é precisamente isso que acontece neste País e nesta Região. Em doses perigosas. Muito perigosas.

Começou tudo com um primeiro-ministro, um homem que nunca trabalhou a sério na vida, a dizer que os portugueses não podiam ser ‘piegas’ perante a primeira dose de austeridade que impôs. Chamou piegas a todos os que há muito tempo lutavam para conseguir chegar ao fim do mês com um saldo bancário perto do zero e faziam figas para que os malucos que se dizem economistas não inventassem uma nova forma de tortura que os colocasse em ‘negativos’. Mas eram piegas, lembram-se?

Depois veio muito mais pancada, sempre com o primeiro-ministro a garantir que os portugueses estavam a mostrar coragem - passaram rapidamente de piegas a heróis - a cumprir um plano que seria a grande salvação e o caminho certo para um futuro glorioso. Ninguém acreditou, mas continuámos todos a penar. Fizemos tudo certinho e parece que não serviu para nada.

Agora, num gesto perverso e desumano, perante a total incapacidade do Estado para a reduzir despesas, voltam a carregar sobre o Povo. Desta vez o massacre assume níveis de tortura sádica. E, mais uma vez, foi apresentado como sendo uma simples ‘picadinha de nada’, que não vai doer... Porque o Povo aguenta, acreditam eles.

Mas o Povo não aguenta mais. Esse Povo que o primeiro-ministro e os ministros do PSD e do CDS não conhecem, não fazem a mínima ideia do que está a passar e do desespero em que foi mergulhado, já não aguenta mais e perdeu a paciência. Um Povo que perdeu a calma porque há muito protesta sem ser ouvido, porque ‘os que mandam’ estão mais entretidos a falar inglês com uns funcionários estrangeiros que mandam, realmente, no País.

De tal forma não conhece quem o elegeu que o primeiro-ministro, depois de anunciar aquela desgraça da TSU, foi a um concerto do Paulo de Carvalho cantar ‘Nini dos meus quinze anos’. Talvez uma referência à maturidade que revela.

E talvez não esperasse a reacção nas ruas, com as maiores manifestações de protesto de sempre - o 1º de Maio de 1974 foi uma manifestação de alegria - e um claro cartão vermelho ao seu Governo.

O mesmo para o parceiro de coligação, Portas, que não percebeu que o teatro do fim-de-semana, que só serviu para inventar argumentos para se manter no Governo já não convence. Até porque o Povo já não tem a mínima vontade de se deixar convencer.

Também por cá, os governantes não andam nos autocarros e não fazem a mínima ideia do que sente o Povo. Só assim se compreendem afirmações absurdas como as do presidente do Governo Regional que não percebeu que a manifestação de sábado também era contra si. Contra as decisões erradas que levaram a Madeira a uma situação desesperada, contra um comportamento político que dificilmente pode ser enquadrado na definição de democracia.

É também por já não conhecer o Povo - essa já foi a sua grande arma política - que Alberto João Jardim se recandidata à liderança do partido. Pode ganhar entre os social-democratas, mas entre os madeirenses está a perder terreno todos os dias. O discurso primário, com violência verbal e vazio de conteúdo já não convence. Basta viajar de autocarro e ouvir o que dizem.