A eloquente e entusiasmante manifestação do passado sábado no Funchal tem motivado leituras legítimas, comparações ridículas e até aproveitamentos desnecessários, como se não valesse por si só.
A livre e respeitável adesão ao protesto ‘que se lixe a troika’ permite concluir que a cidadania está activa, convicta e disponível para acelerar mudanças em nome dos valores que herdou. É o que nos vale e que não pode ser confundido com a sede protagonismo de um ou outro ‘trotskista’ tenro e sem palco, de ataques inexplicáveis aos partidos e de acusações disparatadas aos meios de comunicação.
A vontade de estar presente e dar expressão pública ao desejo de intervir, de cultivar o espírito cívico e de alargar as margens num rio que se agiganta é bem mais importante do que os números – e neste aspecto a própria ‘organização’ oscila entre os 2 e, imaginem, os 5 mil, o que diz bem dos propósitos de alguns.
Chamar à razão quem nos governa, actuar em legítima de defesa e acautelar o futuro colectivo é bem mais importante do que pegar no megafone e debitar asneiradas, ofendendo gratuitamente quem faz o seu trabalho no mundo da comunicação social ou quem abraça causas partidárias, sindicais e sociais. Só quem não tem memória e é mal agradecido pode atrever-se a excluir quem quer que seja do protesto sentido, portando-se assim à imagem de todos os irresponsáveis que nos deixaram na miséria.
Reclamar pela melhoria das condições de vida, pelos “direitos, liberdades e garantias” é bem mais importante do que comparar o incomparável, por sinal, outro dos males típicos e notados em quem tem manifesta falta de berço. A este respeito importa denunciar a tentativa frustrada de acusar o DIÁRIO de tudo fazer para boicotar a manifestação. Para além da ingratidão a que já nos habituaram algumas figuras, alegar que o concerto do Panda tirou gente ao protesto é patético. Só o delírio explica que alguém entenda como “concorrência” um espectáculo pago, anunciado publicamente em Maio, comercializado desde Agosto e com objectivos bem definidos. Não abona nada em favor dos mais lúcidos dos contestatários questionar os critérios das famílias que quiseram proporcionar um momento de lazer aos seus filhos e de dar-lhes o que porventura faltou em algumas infâncias. Acusá-las hipocritamente de enfraquecer a manifestação - que até mudou de local de partida duas vezes, que foi convocada através das redes sociais e mesmo assim por nós mediatizada - é desvalorizar a generosidade de quem trouxe sem medo a democracia para a rua.
Presume-se que quem é líder esteja pelo menos bem informado. E que respeite as opções feitas em cada instante. Se assim não fosse também seriam questionáveis os comportamentos do eleitorado madeirense, o mesmo que nas legislativas nacionais de 2011, ajudou a eleger Passos e Portas. Na altura, dos 138.851 votantes, 87.597 preferiram PSD e CDS. Ou seja, havia pelo menos 51.254 potenciais eleitores, a que se juntam os 116.865 abstencionistas, partidariamente contra a austeridade. E onde estavam no sábado?
Onde quer que estivessem, presume-se que solidários com a revolta, devem ter notado que também faltaram os mais de 20 mil desempregados registados na Região e alguns dos mais dinâmicos políticos regionais, percebendo-se assim porque foram ingenuamente poupados alvos locais a criminalizar, os autores do ‘buraco’ e da dívida colossal escondida, seus cúmplices e beneficiários. Onde quer que estivessem perceberam que o povo quer mais do que outros rostos no poder pois, como alerta Manuel Alegre, já não se sente representado pelos partidos. E também devem ter notado que as máquinas fotográficas ganharam aos tradicionais cartazes perpetuando assim o ‘vento de mudança’*, do qual se abriga a brigada do “decoro institucional”.
* Opinião para ler ao ritmo de ‘Wind Of Change’, dos Scorpions, clicando aqui.