Estão a ver aquele cidadão pobre, atolado em dívidas e sem saber o que vai comer ao jantar mas pronto a pagar o almoço ao patrão para ficar bem na fotografia? Claro que estão, todos conhecemos alguém assim. Pois é assim que vejo este Portugal que está para a 'troika' e para o resto da Europa como o 'pata rapada' está para o doutor: curvado, de mão estendida e inchado de um orgulho ridículo. Estamos a aceitar, com resignação e o habitual comodismo, um novo modelo de colonialismo financeiro, se assim se pode chamar. Quase voltámos àquela regra do "três por um", em que o agricultor, esfarrapado, calejado da cabeça aos pés - e de cabeça ainda mais calejada e dura e oca - a produzir quatro sacas de semilhas e a ter de entregar parte ao senhor da terra. Pois assim somos sós. Portugueses firmes em salvar, outra vez, a pátria. Dispostos, pelo menos até à ultima ameaça de Passos Coelho, a mais e mais sacrifícios à custa dos mesmos de sempre e para beneficiar sempre os mesmos. Tudo para ficarmos bem vistos, para termos boa nota, para passarmos nos espampanantes exames da uma 'troika' que nos veio ensinar a governar a nossa própria casa. E quando todos os outros alunos da turma protestam, reclamam dos professores e pedem revisão de nota, estamos nós bem sentados à mesa das migalhas para comer e calar e pagar. Já é um lugar comum dizer que este governo de Passos e de Portas é mais 'troikista' que a própria 'troika'. Mas o que aconteceu esta semana vem comprovar de forma cabal essa triste realidade. Contra todo o País, contra a esquerda e a direita, e até o centro, contra os sindicatos e os patrões, contra a maioria dos antigos governantes e dirigentes políticos, este governo de meninos aparentemente bem comportados, de cabelo bem penteado e gravata bem posta, obriga-nos a mergulhar naquilo a que alguns já chamam um TSUnami causado por ondas gigantescas de novas contribuições para a Segurança Social, apenas para os trabalhadores, enquanto essa mesma carga é significativamente aliviada para aos empresários. E o risível disto tudo é que são os próprios empresários a dizer: não queremos esse presente! E não querem por uma razão simples: fizeram umas continhas de merceeiro e concluíram aquilo que ilustres académicas da alta finança não foram capazes de entender e que se traduz numa equação básica: se os trabalhadores descontam ainda mais, ficam com ainda menos. E se ficam com menos, vão consumir menos. Se vão consumir menos, os patrões vão vender menos. Se vão vender menos, vão lucrar menos. Se vão lucrar menos, vão despedir mais. E assim se esmaga uma medida pensada, ponderada e ratificada por altos conselheiros pagos por todos nós para concluir aquilo que o tasqueiro da esquina sabia se lhe tivessem perguntado alguma coisa. E aqui estamos nós, quase todos os portugueses, sobretudo a classe média que sempre aguentou este País e que não pode fugir aos impostos como os ricos nem às dificuldades dos pobres, novamente essa classe média a chegar-se à frente, desta vez empurrada, para salvar o País da bancarrota. A diferença é que estes sacrifícios começam a ser demasiado frequentes. Foi assim com Mário Soares na década de 80, antes de desbaratarmos com Cavaco na década de 90 e depois também com Guterres. Foi assim com Durão, quase era assim com Santana, foi assim com Sócrates. Cortes, cortes e mais cortes mas sempre nos mesmos, nos portugueses do meio, os tais que aguentam o luxo dos ricos e a miséria dos pobres. E é assim com Passos e Portas, mas da forma mais acintosa que alguma vez vimos. E lá vai o cidadão remediado, a caminhar para pobre mas ainda honrado e vaidoso, mais uma vez, pagar o almoço ao patrão. O mesmo que nem dá garantias de lhe pagar a tempo de comprar alguma coisa para deitar na panela do jantar. Definitivamente, este País segura-se em quatro pilares essenciais: pobres resignados, remediados armados em ricos, ricos mal agradecidos e governantes embrutecidos.