O homem estava radiante com o seu porquinho. Desde bácoro alimentara-o com os restos da mesa e as sobras da horta, o pouco que ficava do esforço da sua sobrevivência. Sempre zelara por ele, não havia dia que não se abeirasse do chiqueiro para lhe fazer uma festa e encher o gamelão. O tempo, o zelo e as sobras bastaram para que, no tempo certo, chegasse ao seu tamanho. Nos últimos meses do ano, para que ganhasse peso, o homem rodeara o porco com especiais atenções. Para além do afago (um porco feliz engorda melhor), despejou no gamelão borage bem nutrida em doses bem frequentes. Nem se coibiu de pôr no gamelão alguns frutos da horta, desejados no seu próprio prato. Chegado o momento de colher o resultado do seu esforço, preparou a matança. Convidou os seus senhorios, eram dois (tipo coligação PSD/CDS), proprietários do terreno onde o homem cultivava a sua horta. Como não bastavam para dominar o porco na hora da matança, convidou três vizinhos (uma espécie de troika) com bom corpo para a tarefa. Feita a matança, e limpo e esquartejado o porco, fizeram o convívio da praxe, devorando o lombo numa boa espetada. Quando os três vizinhos se dirigiram à porta, o homem chamou-os. A um deu um pernil, ao outro o lombo e, ao terceiro, a perna dianteira. Afinal, sem eles, o porco ainda estaria no chiqueiro. Os senhorios também não se demoraram mais e o homem ofereceu-lhes o outro pernil e a outra perna dianteira. Não podia esquecer que eram os donos do terreno que havia alimentado o porco. Quando, por fim, o homem se preparava para meter no salgueiro o que restava do porco, disse-lhe a mulher: "Deixa estar, não podemos esquecer a comadre, e o resto meto num cozido amanhã".

Hélder Spínola, Deputado da Nova Democracia