De uma forma "naive" (simplória) diremos: - Num território em altitude corriam atrás das vacas. Os melhores podiam ter mais vacas, isto é, mais leite e carne para os filhos ou para trocar por outras coisas. Adaptaram-se e selecionaram-se os que corriam mais. Hoje os descendentes "limpam" as medalhas nas provas de fundo. Tal como se adaptam e selecionam os que melhor 1- suportam o stress de um combate de judo, 2- se integram no grupo no futebol, 3- dominam a precisão de movimentos na ginástica, etc., ou, no ensino, os que melhor "fazem contas' e 'despejam conhecimento' (quase dizíamos 'vomitam'). Nesta altura milhares de jovens estão a inscrever-se no ensino superior e outros tantos começam uma nova época desportiva. Nalguns casos praticamente não existiu seleção, ou foi feita uma seleção sem que se questione se é bem feita. Será que a forma mais correta de selecionar quem entra no ensino superior é considerar a nota do ensino secundário e respetivos exames? Será que a seleção de jovens para a prática desportiva, baseada (de forma encapotada) na sua maturação biológica e tempo de prática, pretensa garantia de sucesso a curto prazo, é aceitável? Considerando o estado a que chegou o país (da economia ao desporto) talvez se possa suspeitar que não. Contudo, continuamos a assobiar para o lado, todos satisfeitos com os nossos filhos futuros doutores e craques do desporto, campeões de qualquer coisa... Critica-se o ensino básico e secundário, por exemplo, com os seus programas enciclopédicos e um plano curricular cartesiano, por não desenvolver o espírito crítico, o empreendedorismo, a capacidade de tomar decisões, etc. e por apelar essencialmente à capacidade de memorização e à reprodução do que é transmitido, mas depois aceita-se que as notas obtidas sejam o único fator de seleção dos alunos! Critica-se que no desporto jovem se valoriza em demasia os resultados desportivos de curto prazo, mas depois endeusamos os jovens craques e não pedimos responsabilidades quando os mesmos abandonam a prática desportiva ou não evoluem…! Hoje já há alternativas credíveis. Porém, parece não existir vontade em discuti-las e aplicá-las. Talvez por isso o país esteja como está e não se vislumbrem grandes esperanças que no médio prazo ocorram alterações significativas. Entretanto cada um lá se vai tentando desenrascar, mesmo que muitas vezes vá dando umas pisadelas, uns encontrões e em alguns casos deixando "cadáveres na beira da estrada"… A pergunta terá que ser: "atrás de que vacas" devemos correr para nos adaptarmos e selecionarmos para os objetivos pretendidos?

Hélder Lopes, Professor Universitário