A cada dia que passa torna-se mais clara a situação aflitiva de muitas famílias e empresas. Só esta semana soubemos que duas empresas na área da panificação vão fechar portas e enviar para o desemprego quase duas centenas de trabalhadores.
Para muitos, o número pode ser uma abstracção, mas são famílias inteiras que se vêem, de um dia para outro, na linha incerta de um futuro sem horizonte e sem chão.
A estas empresas, cujo nome até agora sonante garante a notícia, juntam-se outras que não escapam à voracidade de um furacão que varre a vida e o quotidiano, a casa e o lugar onde, até agora, se descansava o corpo e a alma, a realidade e os sonhos. Há um desespero crescente que o Verão não apaga. Há uma esperança cada vez mais ténue e gente que ainda cala, mas já não descansa.
Entre a normalidade que quem nos governa tenta mascarar e a vida real, há cada vez mais um fosso profundo e escuro, um movimento de derrota, um caminho sem regresso.
A insónia da maioria não pode, nem deve continuar a embalar o sono dos que apenas se preocupam em manter a aparência de normalidade. Não pode sustentar os que ainda optam por deixar intocado o valor de um jornal de propaganda, cujas notícias não revelam a realidade, mas sim a pura ficção delirante dos que tentam manter o seu lado do barco a salvo do naufrágio geral, ao mesmo tempo que ensaiam o canto de sereia que tem por objectivo convencer todos os outros de que é debaixo de água que se respira melhor.
Não, não é. Abaixo da linha de água, onde tantos ainda resistem, já não se respira, quase já não se vive. Abaixo dessa linha ainda invisível aos olhos, há um desespero surdo e mudo. há aquele silêncio que antecipa o grito e a revolta. É nessa linha de espera, na acalmia aparente que estamos todos, mas não por muito tempo.