O repinte desastroso do "Ecce Homo" do santuário espanhol de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja, relançou a discussão sobre o restauro de obras de arte. A acesa polémica sobre tão destruidora e, ao mesmo tempo, caricata tentativa de restauro, do fresco do séc. XIX, do pintor Elías García Martínez, por uma cidadã local, fez correr tinta nos jornais e redes socias de todo o mundo. Satirizada por uns, apoiada por outros, condenada por uns quantos, Cecilia Giménez, a "artista" recriadora, repintadora da pintura original e bem intencionada, personaliza uma situação, que não é única e muito menos nova no seio do património cultural: o das intervenções que não obedecem a pré- requisitos, profissionalismo, nem competência. Hoje, a conservação e restauro é uma ciência. No nosso país, existem licenciaturas, mestrados e doutoramentos, que formam a base e a especialização dos cientistas conservadores-restauradores. A conservação e restauro não é para os artistas recriarem obras, nem para os que têm "jeitinho de mãos" darem largas à imaginação, nem mesmo, para aqueles que, ao tirarem uns cursos relâmpago de 6 a 12 meses no país, ou no estrangeiro julgarem que estão aptos a tocar nas obras de arte e se auto-intitularem restauradores, porque não são, apenas fizeram uns cursinhos livres, que por mero acaso, têm o nome de restauro de obras de arte. A população, e, em particular, todos os responsáveis pelo património cultural devem procurar estar bem informados, quer para as necessidades e benefícios da conservação preventiva, quer para as questões da conservação e restauro de forma a prevenir outros desastres como o do Ecce Homo de Borja, que ficou assim conhecido pelas piores razões.
Raquel Fraga, Historiadora de Arte