A música é uma forma de expressão e tradução de emoções e sentimentos através dos sons, diria que é uma linguagem que espelha tudo o que somos e que no entanto é muito maior que qualquer Ser e Acção ou Emoção que seja capaz de Ser ou Sentir, Reproduzir ou Fazer. Somos essencialmente seres de reprodução, aprendemos o que já foi adquirido, refazemos coisas que já foram feitas e reciclamos ideias, misturando experiências. Mas também somos capazes de Criar, o que é extremamente interessante e grandioso. A criação quando é estimulada deixa o Ser passar por uma certa loucura e solidão mas só assim o Ser é capaz de se abandonar para então reagir à experiência e traduzi-la como quem a apreende pela primeira vez. Todos somos capazes de Criar, mas poucos de nós em liberdade absoluta, afinal de contas desprendermo-nos de nós próprios e de toda uma ideia de sociedade é extremamente difícil, longe da formatação que nos deram desde crianças e da imposição de um sistema e de uma personalidade ideal. Este Animal que somos, capaz das coisas mais belas e mais horrorosas do Mundo tem portanto um potencial tremendo e muitas escolhas para fazer. Estas escolhas deixam-nos nervosos, inquietos, apressados e desconfiados, todos nós estamos numa busca eterna da tal felicidade que nos foi prometida na aquisição de materialismo, de saúde, de amor, ou na formação do Ser ideal. Em virtude dessa procura fazemos promessas, corremos, trabalhamos e desesperamos. Esta dose de loucura é essencial para quem Cria, sobre a forma de Arte ou da Vida, que a Criação pode ser andar pela primeira vez ou ler um poema de Neruda, o receptor da Arte tem o poder de Criar a sua versão. Pura e simplesmente Criar, abandonado de qualquer pretensão ou predefinição. Poderá haver algo mais desafiante?

Vânia Fernandes