A gare do porto, um novíssimo edifício de linhas modernas do ano de 2010, ocupa agora o espaço dos velhos barracões onde esteve instalada uma esplanada sem requintes e lojas de artesanato sem qualidade. Junto havia também espaços de armazém quando ali se descarregavam mercadorias. As regras internacionais da segurança dos portos determinaram a sua interdição de circulação. A Pontinha só volta a abrir-se com restrições depois de muitas queixas da população em que me incluo, habituada a usufruir daquele espaço. Os que ali pescavam há anos a fio tiveram de mudar de sítio. Apareceram redes limitando zona sonde é proibido ao cidadão comum aceder o que concedeu àquele espaço novas particularidades, não necessariamente boas. O primeiro local onde levava os amigos era a Pontinha… pois, digo era, porque já não é. Está impossível! Quando lá tenho passado em passeio de fim de tarde pergunto-me o que pensam os turistas que nos visitam do cheiro do porto do Funchal. Não há muito tempo assisti à indignação de um madeirense que retornou à terra depois de muitos anos com o facto do café encerrar assim que saiu um dos poucos navios que por cá passou nos últimos meses. Há poucos dias ouvi uma espanhola comentando o lugar que classificava de "inóspito e feio"… Custou-me, mas tenho de admitir que é no que se tornou. Com a diminuição de movimento no porto: de transeuntes, pescadores, turistas e barcos a pontinha é agora um recinto que lembra aquela cena de filme que todos os da minha geração têm na memória de Os Pássaros de Hitchcock. (os que não sabem do que falo… bem podem procurá-la no youtube para perceberem o que digo). As gaivotas que sempre conviveram: com os navios, com turistas, com quem passeava fosse natural ou estrangeiro, com os pescadores que diariamente e paciente e diligentemente punham ali à prova a sua competência nestas lides sem importunar ninguém, pousando quando tinham oportunidade para o fazer sobre a parte mais alta da muralha sem nunca permanecerem o tempo suficiente para incomodarem apropriaram-se agora do espaço, e de que forma! Deixam-no altamente conspurcado das suas fezes que fedem no calor do verão. E como o verão está há muito instalado faz tempo o ar, na Pontinha, é em determinados dias insuportável. O Diário de Notícias já se referiu a este problema por mais do que uma vez sendo a última no dia 12 deste mês de agosto. Diz essa reportagem que a APRAM afirma já terem sido testadas "todas as técnicas e equipamentos sonoros - sem grandes efeitos". Parece que o problema anda agora feito bola de ping-pong, porque a entidade responsável pelo porto do Funchal diz que a sua resolução é da responsabilidade do Parque Natural da Madeira. Ora, não é que as nossas gaivotas, que não andam perdidas (como diz o fado), antes muito acompanhadas, resolveram, segundo afirmam estas entidades, deixar a Estação de Tratamento de Resíduos Sólidos da Meia Serra preferindo permanecer estáticas olhando o mar na cobertura clara, arredondada, lisa e brilhante da nossa recentíssima gare de linhas e materiais modernos que encontraram quentinha e super confortável? E mais… e atrevidamente passear-se e apropriar-se também das zonas agora interditas à circulação de peões no espaço entre as redes e a muralha de amarração dos navios conspurcando-a tal como na cobertura da gare? Sem dúvida, os materiais e a forma do edifício da gare do porto do Funchal é do agrado da nossa população de gaivotas. Já percebemos. É igualmente muito do seu agrado que ninguém as incomode a apropriação que fizeram no espaço que lhes foi deixado livre pelo impedimento da circulação de pessoas e automóveis. De facto, observei por estes dias, onde há movimento não há gaivotas: onde circulam carros e pessoas ao longo do molhe e na parte final entre a gare e o fim do porto. Para constatar o que digo basta olhar a mancha branca da sujidade que deixam acumulada… Assim, temos uma gare com um "espaço circundante elegante e amplo" à qual falta movimento, vida e elegância e gosto nos seus adornos. Conforme se lê no site Infocruzeiros, pretendia-se com essa construção um "novo polo de atração não só para os madeirenses, como para os turistas" o que, neste momento está difícil. Uma das particularidades daquela construção apesar de ser para atrair também os madeirenses é o seu café ter uma varanda sem a vista da cidade, que foi ocupada pelo corredor que há de ser para turistas, e muitas vezes estar fechado. Gosto de olhar a cidade de frente! Encará-la em toda a sua grandeza! Por isso muitos foram os dias em que, com colegas, em fim de tardes mornas de início de verão em momento de relaxar fui até à Pontinha onde nos sentávamos naquela esplanada sem requintes refrescando-nos com uma bebida e desfrutando com o olhar a beleza da cidade que crescia, para além do mar que nos separava dela constantemente sobrevoado por gaivotas, pelas encostas magníficas de suave declive cobertas de casario, em tom avermelhado dominante dos telhados alaranjado pelo sol de fim de tarde e aureolada de um céu pálido de neblina. Para os que cá vivem é ali o lugar! Conheço-o desde bem pequena… muito antes da esplanada existir. Razão por que o primeiro local onde levava qualquer visitante, amigo de fora da ilha a quem por gosto acompanho no papel de cicerone, era a Pontinha. E ali ficávamos, na mesma esplanada sem requintes virando-lhe as costas indiferentes a esse pormenor e a olhar o Funchal de frente observando, primeiro o todo, depois as partes. Apontava-lhes as particularidades, os edifícios: os mais antigos e os mais recentes, as manchas verdes das quintas, os vales das ribeiras… e alguns estragos na paisagem. Enfim, local obrigatório para começar a conhecer a cidade. Estava isto há muito organizado na minha forma de agir e… o lugar deixa de nos pertencer. Obras com vista à construção de uma gare marítima de que, de facto, carecíamos determinaram o encerramento desse local mágico. Encarar o Funchal de frente é também observar/refletir sobre o que não o beneficia.
Maria de Fátima Vieira de Abreu, Professora