Sérgio Potier Toda a gente se queixa dos ajustamentos estruturais a que Portugal e outros países estão sujeitos, mas estes ajustamentos acontecem (como outros no passado) precisamente para responder a crises económicas profundas devido a elevadas dividas externas que foram contraídas, muitas delas, devido ao fraco crescimento do produto, e por esse motivo, os estados tiveram que se endividarem senão os países paravam, apesar de alguns descurarem o

endividamento relativamente ao PIB. Ora, estes ajustamentos são sempre conduzidos sob a égide de instituições financeiras internacionais, através de empréstimos, que incluem medidas como a liberalização da legislação laboral, diminuição da despesa pública, controlo orçamental..., portanto, nada de novo. Foi sempre assim. O emagrecimento a que outros e nós estamos sujeitos deve-se (porque quem conhece a estória da dívida ao longo dos séculos) sabe que nem todos os países podem contrair a mesma divida em percentagem do PIB, e por esse facto, houve impérios e países que foram destruídos. Houve países que suspenderam pagamentos com uma dívida de 20% do PIB e outros como o Japão que ultrapassaram os 200% do PIB sem grandes dificuldades de financiamento em razão da sua elevada poupança interna, o que significa que, quanto mais o financiamento da divida soberana estiver garantida pela poupança interna mais estável será a divida. Entre 1800 e 2009 houve 250 casos de suspensão de pagamentos externos e 68 casos de pagamentos internos, e tal como hoje, estas suspensões fizeram-se por conversão forçada em valores inferiores ou por suspensão temporária ou definitiva de pagamentos de juros e de capital, o que levou estes países à exclusão temporária do mercado, cuja suspensão dura quase sempre mais tempo do que a crise bancária que a desencadeou.

A pergunta que se coloca é esta: os povos tiveram culpa do seu próprio endividamento?. Fala-se em escolhas racionais, mas a racionalidade não parte só da curva da procura mas também da oferta. O Banco Central tem obrigação de perguntar aos bancos comerciais o que vão fazer com o dinheiro que os agentes económicos lá colocaram e colocam, e pelos vistos, e aparentemente, não foi isso que aconteceu. E por isso, hoje, as empresas e as famílias vêem-se a braços com o mecanismo económico de estabilização automática (aumento do IRS, do IVA, do IMI - reequilibro orçamental) e a consequente anorexia nacional pelo aumento do desemprego por via da redução dos efectivos (downsising) e do fecho de empresas, o que leva à diminuição da procura pela redução do poder de compra dos consumidores e à viva contestação popular, e apesar do ajustamento promover ( em principio) o crescimento económico pode não ser um factor de desenvolvimento económico.