Por mais que se mudem governos ou se tomem medidas de austeridade, no atual quadro partidário, não conseguiremos resolver os problemas estruturais e muito menos conseguiremos lançar o país na senda da modernidade e do desenvolvimento. O principal problema que nos afeta e que subjaz a todos os outros é de ordem cultural, com reflexo direto na moral das pessoas e na forma conformada e fatalista como estas aceitam a vida e a organização sociais e do estado. Esta cultura atravessa a nossa sociedade e explica a forma como somos governados. Os partidos da governação, PS e PSD, vão-se alternando no poder, com diferenças mais a nível da forma do que da substância. Montaram um "roulement", onde agora governas tu, logo governo eu, depois governamos tu mais eu. Representam os seus militantes, os grupos económicos que os apoiam, mas, principalmente, significam emprego para o círculo mais restrito dos seus dirigentes. Não será por acaso que a forma mais típica de chegar a governante é através da pertença às "Jotas", organizações que funcionam como uma espécie de aviário para políticos. Os pimpolhos inscrevem-se, por lá vão andando, fazem uns trabalhinhos mais ou menos "sujos", quando mais velhinhos, por vezes, são candidatos e desempenham cargos, e com sorte, estômago e a arte de fazerem a aposta no cavalo certo, ao fim dum tempo, chegarão a diretores disto, deputados, subsecretários daquilo e às vezes ministros. Ao longo do percurso, de grão a grão, irão "enchendo o papo", ascendendo à condição de boy ou girl. Com o tempo, irão acumulando sobre os demais mortais uma capacidade de influência tanto a nível de processos, como de decisões, de negócios ou de nomeações, as quais, consoante o nível que ocupam a cada momento, vão desde o lugar como contínuo até CEO duma grande empresa pública. Para quem é político, dá sempre jeito aos negócios, passados, presentes e futuros, o "networking", ou seja, o universo de amigos e correligionários. Como é lógico, estar no poder é melhor, sempre há mais e melhores lugares, mas para a oposição, há sempre há uns lugarzitos de deputado, desde que estejamos a bem com o líder do nosso partido e sejamos cordatos. À medida que nos vamos distanciando do centro da arena, na 2ª, 3ª e 4ª filas, os lugares vão sendo progressivamente mais cómodos, há menos que fazer, podemos dormir, conversar, sobretudo quando o nosso partido tem muitos deputados. Indispensável é estar presente na hora das votações e não contrariar a disciplina de voto, porque isto de lealdade, sempre é melhor tê-la com o líder do partido do que com os eleitores. Para se ser governante, não são necessários pré requisitos, não necessitamos ser competentes, de ter uma profissão, sequer opinião, de termos gerido uma empresa, de termos criado um único posto de trabalho; basta o presidente do nosso partido ter-nos incluído na "lista". Convém ter algumas habilitações, dá bom especto, mas, se não as tivermos, haverá sempre alguém do "network" que dê um jeito. Convém vermos no mapa onde se situa o círculo pelo qual somos nomeados. Em campanha temos de estar num ou dois comícios, fazer pelo menos uma arruada. Vá de prometer o "mundo e o fundo", " bacalhau a pataco". Temos de pensar muito bem para prometer justamente aquilo que não tencionamos fazer, ao passo que temos de negar "a pés juntos" o que faremos primeiro. Podemos estar confiantes de que nenhum Presidente da República nos puxará as orelhas por sermos aldrabões, nem nenhum tribunal nos condenará por fraude aos eleitores. Podemos "escaqueirar" o Estado Social, podemos gerir danosamente e malbaratar o dinheiro público à vontade. Se não houver mais dinheiro, podemos sempre pedir emprestado, haverá sempre filhos e netos para pagar. Quando o Tribunal de Contas descobre alguma coisa, diz-nos: "veja lá, para a próxima, não volte a fazer", o que às vezes é aborrecido, mas não nos mete na cadeia. O dia seguinte, quando deixarmos de ser ministros é que é bom, sobretudo se tivermos tido o cuidado de acautelar antecipadamente as nossas relações, em especial com aquelas empresas a quem adjudicamos contratos como ministros. Na maioria das vezes, depois dum curto período de nojo, iremos para Chairman ou CEO duma ex-empresa pública ou de obras públicas. O pior que nos poderá acontecer é, se perdermos as eleições, sermos deputados da oposição na legislatura seguinte. Enquanto acharmos que não temos nada a ver com isso, que o nosso voto não fará a diferença, enquanto não exigirmos a mudança da lei que permite a inimputabilidade dos governantes, enquanto não lutarmos para se criarem leis que os obriguem a responder pessoalmente pelos seus desmandos, enquanto não se criarem os círculos uninominais para responsabilizar os deputados perante os seus eleitores, enquanto não se aprovarem leis que obriguem as pessoas a explicar as riquezas não justificadas, enquanto os cargos dirigentes do estado forem ocupados por boys e não por gente competente, enquanto o Tribunal de Contas não tiver poderes para mandar gente para a cadeia, nem Portugal, nem a nossa vida mudarão. Aos partidos atuais, que beneficiam diretamente com esta situação, no governo ou na oposição, interessa que nada mude, pois está bem assim. E esta é a gente a que nos governa. A História mostra-nos que partidos, morrem uns e nascem outros. Será que os partidos referidos ainda têm alguma capacidade de regeneração, ou será que já começa a haver necessidade de um novo partido na área da social-democracia?
Helder Melim