Ratings e resgates à parte, o Estado, como o conhecemos hoje, não é um conceito pré-fabricado num qualquer manual de ciência política, e não será, certamente, um produto acabado de organização política e social. Antes, o Estado percorreu um tortuoso caminho de evolução, dando os primeiros passos numa infância ateniense de democracia directa, passando por uma conturbada adolescência medieval e desembocando numa meia-idade constitucional, da qual somos contemporâneos. Então qual é a alma desta organização a que chamamos de Estado? Embora muitos a encontrem na capacidade de cada cidadão escolher o seu representante nas instituições - a eleição -, outros tantos olham para os tribunais como o último garante do (depauperado) Estado de Direito, sem esquecer os que tudo radicam no povo, como conjunto legitimador e purificador de todo o poder. Sem duvidar da pertinência de cada um dos argumentos, é na separação de poderes que jaz a essência de um Estado, na capacidade das instituições actuarem em conjunto, sem perderem a sua autonomia e mantendo a sua eficácia. O futuro do Estado reside na credibilização das instituições políticas, através da sua operacionalização em causas concretas, com impacto no dia-a-dia dos cidadãos, ou não fosse o pior político aquele que não pode e que não se explica. Traçando um paralelo a Benjamin Franklin, qualquer sociedade que atalhe na independência das suas instituições para ganhar um pouco de democracia, não merece nenhuma e perderá as duas.

João Marques, Advogado