Era o teu arraial preferido, uma espécie de Natal em pleno Agosto. Cumprias todas as novenas não com devoção religiosa, mas com algo mais profundo e genuíno: o sentido de pertença ao lugar.

O teu Monte era aquele, do Largo das Babosas ao Largo da Fonte, o bar do primo Elias, a Igreja onde passavas sem demoras e com uma fé à tua medida.

A nós, ensinavas os caminhos, o lago dos patos, a capela das Babosas, os terrenos da família numa serra impossível de domar e que eram, por isso, incertos entre os pinheiros e as nuvens baixas. Era como ser herdeiro do vento. E não havia nada mais importante do que isso, essa liberdade de ter tudo e nevoeiro.

Lembro-me de acompanhar o teu passo apressado, o teu casaco de bombazine por entre a multidão, a curvatura única do teu braço e a história que a acompanhava, uma das muitas que gostavas de contar.

Na minha memória, incerta como o vento de que é feita a tua herança, as histórias misturam-se com o teu sorriso, a caixa de bolos, o assobio dobrado em três sons, o cigarro entre os teus dedos nervosos. Sim, esse ligeiro tremor que herdei.

Este ano, pela primeira vez, não foste ao teu arraial. Já cá não estás...

Mas, sabes, a mamã pagou a tua parte da novena dos carreiros, a Beatriz foi à festa do avô e eu tive, novamente, que fazer a cobertura da missa do dia 15.

Arrebatou-me a tua ausência junto à Sacristia. Fez-me falta a forma como costumavas esperar por mim, para um beijo rápido entre o medo de perder as declarações do presidente do Governo.

Este ano, infelizmente, não tive como dividir a minha atenção entre o teu carinho e as coisas importantes das notícias. Mas, não sei se por um truque da memória ou por um segredo do coração, a tua presença foi mais nítida do que nunca. Quase que juro que estavas lá sentado, com o teu casaco de bombazine, o cigarro entre os dedos e o leve tremor das tuas mãos.

(e é para ti, pai, este texto)